Reportagem: "Pequena ilha, grandes sonhos" para Curaçau, o país mais pequeno do Mundial-2026
Desde o último jogo de qualificação frente à Jamaica (0-0), em que um penalti foi marcado e depois cancelado no tempo extra, a pequena ilha neerlandesa com 160.000 habitantes vive imersa na cor azul, a cor da sua seleção nacional, a Blue Wave.
A economia e, em particular, o turismo desta ilha de praias idílicas e águas de tom azul-turquesa estão a ser impulsionados pela febre do futebol.
"O futebol acabou de nos pôr no mapa mundial. O número de visitantes a Curaçau vai crescer", celebra o primeiro-ministro Gilmar Pisas, de 54 anos, numa entrevista à AFP.
Efeito do Mundial? O turismo aumentou 13% no primeiro trimestre, um setor que corresponde a 35 a 40% das receitas do território. Em 2025, cerca de 1,5 milhões de turistas visitaram a ilha, onde hotéis e projetos imobiliários florescem.
Afastados dos cruzeiros e dos resorts, a poeira levanta-se no terreno de terra batida no bairro operário de Fuik, onde os jovens jogam futebol entre dois contentores.
Na rede de vedação, escrito a amarelo sobre fundo azul em papiamento, o crioulo local: "Jovens, vocês são responsáveis pelo vosso futuro".
Os adolescentes suam no pequeno campo sob a orientação de Remko Bisentini, de 57 anos, antigo jogador profissional nos Países Baixos. Mas, mais do que isso, é um ex-selecionador da equipa nacional de Curaçau (2016-2020) e fundou uma organização para jovens em situação de desvantagem.
Qualificação graças à diáspora
"Quando se vem de férias a Curaçau, vê-se as praias, tudo parece ideal... Mas também há áreas onde vivem pessoas pobres", afirma.
"Muitas famílias têm três, quatro, cinco filhos, mas não têm recursos. Ajudamo-los quando não têm o que comer", completa.
Neveron Alberto, 17 anos, do bairro carenciado de Parera, esforça-se ao máximo: "Eu dou o meu melhor para jogar e treinar todos os dias. Vamos ver o que Deus me reserva mais adiante."
Neveron Alberto ambiciona jogar pela Blue Wave, mas ainda há um longo percurso para os jogadores locais. O país deve esta qualificação histórica à sua diáspora, admite o presidente da federação, Gilbert Martina, de 55 anos.
"Todos os jogadores da seleção nacional atuam no estrangeiro. Todos nasceram e cresceram nos Países Baixos, exceto Tahith Chong, que se mudou para os Países Baixos aos 13 anos", declara.
Com "entre 3.500 e 4.000 jogadores filiados", o futebol rivaliza agora com o basebol e as suas muitas estrelas que jogam nas principais ligas dos EUA.
O membro mais conhecido da diáspora de Curaçao? Sem dúvida, a estrela neerlandesa Patrick Kluivert, cujo pai, que representou as Antilhas Holandesas, é surinamês, mas cuja mãe nasceu em Curaçau.
O antigo avançado do Ajax e do Barcelona disse à AFP que está "muito contente pelas pessoas da ilha, por poderem usufruir disto".
"É o país mais pequeno e, por isso, é fantástico a ilha estar no Campeonato do Mundo", afirmou Kluivert.
Visibilidade
"No meu tempo, isto (o futebol) não era tão relevante na ilha, mas agora os jogadores conferiram visibilidade a Curaçao. É importante para o futuro, para a próxima geração", diz o ex-técnico da Blue Wave (2015-2016).
Num grupo complicado com a Alemanha, a Costa do Marfim e o Equador, o antigo jogador do Lille (2007-2008) e ex-diretor desportivo do Paris Saint-Germain deseja aos Blue Wave "tudo de bom", "mas estar no Campeonato do Mundo já é um grande e magnífico feito".
O ex-jogador argentino Claudio Caniggia, que atuou no Benfica e que visitou Curaçao para um torneio de lendas ao lado de Ronaldinho, Kluivert, Wesley Sneijder e Marco Materazzi, crê que esta qualificação "vai motivar" e ajudar "os jogadores a emergir". E que, independentemente do resultado, "será uma grande experiência".
"Se conseguirem avançar da primeira ronda, será extraordinário. Todos os jogos do Campeonato do Mundo são difíceis e, por vezes, há surpresas, por isso, porque não?", disse à AFP Caniggia, finalista com Diego Maradona no Campeonato do Mundo de 1990, em Itália.
O otimismo também se sente no ar na loja oficial, inaugurada há um mês, onde adeptos locais e turistas se concentram para comprar t-shirts, bonés e cachecóis azuis.
"Somos uma pequena ilha com grandes sonhos", diz o caixa Rovien Petronilia, de 21 anos, que promete: "Vamos vencer a Alemanha! Eles são uma grande equipa, tudo bem, mas quando se está confiante, consegue-se."