Mundial 2026: Percurso de Carlos Queiroz revela um treinador de projetos
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“Há quem se sinta mais à vontade numa seleção, mas outros preferem a adrenalina de treinar diariamente e preparar os jogos ao fim de semana. Olhando para o peso histórico, Carlos Queiroz optou claramente por um trabalho que lhe permite desenvolver aquilo em que é especialista. É alguém que pensa, tem ideias e um plano para alcançar objetivos”, reconheceu à agência Lusa o técnico, de 69 anos, que liderou os black stars em 2004 e ajudou a qualificá-los pela primeira vez para o Mundial.
A 23.ª edição do Campeonato do Mundo decorre de 11 de junho a 19 de julho e inclui pela primeira vez 48 seleções, entre as quais Portugal, num total de 104 jogos, sob a inédita organização tripartida entre Estados Unidos, México e Canadá.
Carlos Queiroz, de 73 anos, é o único treinador português em prova e vai estar pela quinta vez em fases finais, depois de 2010, com Portugal, e 2014, 2018 e 2022, todas pelo Irão, igualando o recorde de presenças consecutivas do sérvio Bora Milutinović. O brasileiro Carlos Alberto Parreira detém o máximo global de seis participações, mas não foram consecutivas.
“Com isto, não se quer dizer que nos clubes não se planeia nem se projeta. O problema é que um ou dois maus resultados fazem com que, por vezes, uma época dure dois meses. Numa seleção, o trabalho é completamente diferente. As pessoas acabam por encontrar um reflexo da sua vocação”, salientou.
Antigo preparador físico do Sporting, onde trabalhou com Carlos Queiroz de 1993/94 a 1995/96, Mariano Barreto tem colaborado com a Associação de Futebol do Gana (GFA) num projeto de organização dos treinadores e jogadores daquele país, mas descarta ter contribuído para a contratação do ex-selecionador de Portugal, Irão, Colômbia, Egito, África do Sul, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Omã em abril, a dois meses do Mundial 2026.
“Já não vejo Carlos Queiroz há muitos anos. Soube da notícia como toda a gente. Não tive influência nem nunca aconselhei ou desaconselhei, mas, se me tivessem pedido opinião, teria dito que estavam a fazer uma boa escolha”, assumiu, destacando uma “receção calorosa e carinhosa” do compatriota em Acra, com aplausos, cânticos e música a acompanhar na plateia.
Antes de substituir Otto Addo, Carlos Queiroz esteve envolvido no início da campanha do Catar. Rumou ao Campeonato do Mundo com o espanhol Julen Lopetegui, ex-técnico do FC Porto, e falhou um inédito apuramento com Omã, perdendo a hipótese de ultrapassar as quatro qualificações obtidas pelo inglês Walter Winterbottom e pelo uruguaio Óscar Tabárez.
Carlos Queiroz apurou Portugal para o torneio em 2010, assim como fez com a África do Sul em 2002, sem estar na respetiva fase final, e com o Irão em 2014 e 2018. Não participou no apuramento dos persas em 2022.
“O povo ganês trabalha muito, mas tem bastantes problemas. A sua maior alegria surge nas vitórias da seleção e eles unem-se nesse espírito. Carlos Queiroz teve uma receção boa, mas isso não quer dizer que houve unanimidade, porque, sem surpresa, existiu alguma divisão entre dois ou três nomes nas autoridades desportivas e na imprensa”, disse Mariano Barreto, ex-treinador de Marítimo, Naval 1.º de Maio e Belenenses ou dos ganeses do Asante Kotoko, entre outros clubes portugueses e estrangeiros.
Nascido em Moçambique, mas com dupla nacionalidade, Carlos Queiroz tem 35 anos de carreira como técnico principal no futebol sénior, após a conquista de dois títulos mundiais seguidos de sub-20 com Portugal, em 1989, na Arábia Saudita, e em 1991, numa edição organizada pelos portugueses.
“A partir dessas vitórias, o jogador português começou a ser visto como sendo tão bom como os melhores. Hoje ninguém fala nisso, mas na altura contavam-se pelos dedos os que conseguiam ter sucesso lá fora. A forma de olhar para a formação no país mudou claramente para melhor. Os clubes passaram a fazer grandes investimentos e a ter cuidado na abordagem e organização do futebol jovem, porque era aí que devia ser feito o investimento em vez de só se irem buscar atletas lá fora”, evocou.
A nível de clubes, Carlos Queiroz foi adjunto do escocês Alex Ferguson nos ingleses do Manchester United e passou por Sporting, os norte-americanos do New York/New Jersey MetroStars, atual New York Red Bulls, os japoneses do Nagoya Grampus e os espanhóis do Real Madrid.
“Há uma forma como as pessoas olhavam para o futebol antes e depois de Carlos Queiroz. A nível de organização e conhecimento, deixa este legado para sempre no futebol português, que, obviamente, depois foi aprimorado e reformulado. Deve-se a ele tudo o que de positivo o futebol português teve a partir desses dois Mundiais de sub-20”, terminou Mariano Barreto.