Mundial 2026: Competição poderá render até 945 milhões de euros em Portugal
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Este estudo, que abrange desde o período de preparação até ao jogo decisivo da competição, indica que a presença portuguesa no evento gera no mínimo 378 milhões de euros, caso a seleção fique pela fase de grupos, quantia que pode ascender a 561 milhões de euros se chegar aos oitavos de final e atingir os 945 milhões de euros num cenário de vitória inédita no campeonato.
"Estes montantes resultam de pequenas escolhas diárias das pessoas. Se assistimos aos jogos em casa, comemos snacks e bebemos cerveja. Ou vamos a restaurantes e esplanadas, compramos camisolas, cachecóis, ou aderimos a esta moda dos cromos. As pessoas subscrevem canais, as marcas investem em publicidade, até à pequena percentagem que viaja de avião para os Estados Unidos", afirmou Daniel Sá, diretor executivo do IPAM, em declarações à agência Lusa.
Para além destes aspetos, a economia digital registou a maior evolução no ecossistema do futebol desde o Mundial de 2022, com as plataformas de streaming, as interações nas redes sociais e a produção de conteúdo por utilizadores a representarem agora 23% do valor total.
"No Mundial de 1966, com Eusébio, podíamos ouvir a rádio, ler as notícias e ver as primeiras transmissões televisivas. Passados 60 anos, consumimos o Campeonato do Mundo em tempo real, a toda a hora, em várias plataformas e com todos os pormenores. Esta nova forma de consumir futebol tem um impacto muito significativo na economia portuguesa", sustentou Daniel Sá, diretor executivo do IPAM, em entrevista à agência Lusa.
Esta mudança estrutural, que reduz a importância do consumo tradicional, embora este ainda seja dominante, provoca uma deslocalização do impacto económico, que deixa de se concentrar no local onde o evento acontece, o que coloca desafios a Portugal na retenção de receitas do Mundial 2030, do qual é um dos três países anfitriões.
"Quando pensamos daqui a quatro anos em hologramas, realidade aumentada e inteligência artificial, temos uma possibilidade ainda mais forte de maximizar este retorno, que não se limita apenas aos turistas que vêm dormir nos nossos hotéis e comer nos nossos restaurantes", destacou.
Outro fator a ter em conta é a marca Cristiano Ronaldo, perante a eventualidade de ser a última participação num Mundial do avançado do Al Nassr, que tem um impacto "inquestionável" em várias vertentes da realidade portuguesa, segundo o especialista.
"A marca Cristiano Ronaldo tem um peso fortíssimo, é inquestionável. Ele vale mais, em termos de marca, do que toda a restante seleção junta. Não me refiro ao ponto de vista desportivo, apenas e exclusivamente de marca. É expectável que Ronaldo já não jogue em 2030, mas parece-me que, caso seja a sua vontade e da própria Federação Portuguesa de Futebol, estará muito presente no Mundial 2030, mesmo sem jogar", analisou.
Sendo a maior edição de sempre da competição, com 48 seleções participantes e 104 jogos, as oportunidades de gerar receitas multiplicam-se, mas a sobrecarga do calendário pode levar a um excesso de oferta e a uma consequente saturação do mercado, acredita Daniel Sá.
"Temos visto este problema com a saúde física e mental dos atletas, muitos deles a fazer 50, 60 jogos por ano. A ciência mostra que já estamos a ultrapassar o limite do saudável. Do ponto de vista do utilizador, é exatamente igual. Diria que ter jogos ao vivo praticamente 365 dias por ano cria um risco de saturação e pode gerar cansaço e desinteresse", refletiu.
De acordo com o estudo, a organização tripartida entre Estados Unidos, Canadá e México abre novas perspetivas para a realização da competição, uma vez que se trata de países com experiência e forte capacidade na exploração comercial de grandes eventos desportivos.
"Os Estados Unidos, em particular, têm uma tradição fortíssima. Além da dimensão que este Mundial 2026 tem, acho que todos vamos assistir ao expertise norte-americano. Conseguem transformar qualquer espetáculo desportivo num show, basta lembrarmo-nos do que tem sido a Super Bowl, a NBA e as últimas edições dos Grandes Prémios de Fórmula 1 nos Estados Unidos. Existe esta expectativa de que o desporto seja elevado para outros patamares", explicou.
Será, portanto, uma grande oportunidade de expansão da modalidade para um dos principais mercados mundiais, onde o futebol tem mais dificuldades de implantação: "Há esse objetivo seguramente por trás da decisão da FIFA. Tivemos o Mundial 1994, que deu um primeiro impulso muito significativo na paixão dos norte-americanos pelo futebol com os pés, porque eles gostam é do futebol com as mãos".
Para Daniel Sá, o Campeonato do Mundo poderá ser utilizado pelos Estados Unidos para passar uma "imagem mais simpática do país aos olhos do mundo" e restabelecer o soft power norte-americano, atenuando um contexto de relações internacionais que se tem complicado na presidência de Donald Trump.
"Basta pensarmos nestes três Mundiais de futebol: 2018 pela Rússia, 2022 pelo Qatar e, neste, vou destacar os Estados Unidos, perante uma presidência tão turbulenta. Estes eventos permitem uma lavagem de imagem global. É uma fórmula que tem sido usada e assim continuará a ser no futuro", concluiu.