Diogo Dalot: "Não lutamos só por Portugal, lutamos pelo Diogo Jota"
Diogo Dalot inicia o seu texto a recordar a chamada de José Mourinho que o levou para o Manchester United.
"Quando atendo o telefone, é mesmo ele. José Mourinho. Diz exatamente o que eu desejava escutar: que tenho talento, que sou forte. 'Só precisava de um teste' afirma. Ele tinha estado a observar-me quando o FC Porto defrontou o Liverpool em Anfield semanas antes, pois eu estava a marcar o Sadio Mané. 'Paraste o melhor extremo do mundo. Agora vem jogar para mim.' Depois, o impensável aconteceu, uma lesão grave que exigiu cirurgia quando estava prestes a assinar. Tinha a certeza absoluta de que a transferência tinha caído. Quando chego a casa, envio uma mensagem ao Mourinho a explicar a operação. Ficamos à espera da resposta. Eu, o meu pai, a minha mãe e o meu agente. Sentados em silêncio", recorda Diogo Dalot, antes de revelar a resposta que recebeu.
"Finalmente... PING! Todos olham para mim. Olho para o telemóvel. De: José Mourinho. 'Diogo, não me importo com a lesão. Vais estar parado cinco meses. Estou a contratar-te para os próximos dez anos.' Não imaginam as lágrimas que saíram do meu corpo. A minha mãe chorava. O meu pai desfez-se em lágrimas como nunca o tinha visto. Até o meu agente estava emocionado. Dez segundos antes, vivia o pior dia da minha vida. Depois o Mourinho viu em mim algo que nem eu próprio conseguia ver", lembrou.
"Na temporada seguinte, acredito que fiz apenas 10 jogos em todas as competições. Sentia vergonha de estar na bancada. Sentia-me tão envergonhado que comecei a descer para o balneário para ver os jogos sozinho na televisão. A minha mãe tinha vindo viver comigo para Inglaterra, mas quando chegava a casa mal dizia 'olá'. Descia para a cave, ligava a PlayStation, punha Paranoid a tocar em repetição e começava a pensar. Eu jogava no Porto. Eu era considerado um dos grandes talentos. Agora nem sequer estou no banco. Estou a desperdiçar os meus anos. Estou a perder tempo. O que é que estou aqui a fazer?", acrescentou Diogo Dalot, que voltou atrás, ao início de carreira, quando foi treinar ao Benfica.
"O meu pai sonhava ver-me jogar no FC Porto. Mas cerca de dois anos depois, fui fazer testes ao Benfica. Treinámos ao lado do Estádio da Luz e, quando apareci vestido de vermelho, o meu pai parecia fisicamente doente. Eles queriam ficar comigo. Mas depois o Porto ligou, 'Vem para cá'. O meu sonho concretizou-se. E o dele também. Por essa altura, os meus pais queriam que eu entrasse numa conhecida escola de música. Fiz uma prova de admissão em que era preciso acertar em 90 perguntas de um total de 100. Pergunta: Que animal faz miauuuuu? A minha resposta: cão. RESULTADO FINAL: 3/100", recordou Diogo Dalot.
Outro momento recordado por Diogo Dalot no texto ocorreu quando tinha 12 anos. Um episódio que revela a sua paixão pelo FC Porto e pelo futebol: "Um dia, quando tinha 12 anos, estava a ir para o Porto com um colega de equipa e o pai dele. Vivíamos em Braga e eles deram-me boleia para o treino. Dois minutos depois de entrarmos na autoestrada... BOOM. Um acidente brutal. O carro capotou e ficou virado ao contrário. Antes sequer de perceber o que estava a acontecer, o mundo estava de pernas para o ar. Vidros partidos por todo o lado. Eu estava preso no banco de trás. Desapertei o cinto. Saí pela janela traseira. E corri o mais depressa que consegui. Via-se fumo a sair do carro, mas felizmente todos conseguimos sair com vida. Quando os meus pais chegaram ao local, a minha mãe estava a chorar. Depois vi o meu pai. E sabem qual foi a primeira coisa que lhe disse? Juro por tudo que estas foram as minhas palavras. 'Pai, vá lá, tens de me levar.' Ele respondeu: 'Sim, filho. Vamos para o hospital. Não te preocupes, vais ficar bem.' E eu: 'Hospital? Do que é que estás a falar? Leva-me ao Porto.' Ele ficou a olhar para mim, a tentar perceber."
Dalot regressou ao Manchester United depois de ter estado emprestado ao AC Milan, na sequência de um telefonema de Cristiano Ronaldo. Um ídolo que conheceu na seleção nacional e que o surpreendeu. "Para mim, é completamente absurdo que alguém sequer discuta se ele deve ou não estar num Campeonato do Mundo. Corre como corria aos 22 anos? Não. Marca praticamente um golo por jogo? Sim. Torna todos os que estão à sua volta melhores? Sim. O homem tem 41 anos. Não precisa de estar ali, a competir ao lado de jogadores que podiam ser seus filhos. Mas continua lá. E sempre que falas com ele, sais um pouco mais sábio", garante Diogo Dalot.
A morte de Diogo Jota
"Claro que há também o Mundial. O sonho dos sonhos. Mas este verão será distinto. Não seremos apenas 26 jogadores. Seremos 26 mais 1", escreveu Diogo Dalot, lembrando a morte de Diogo Jota.
"Quando perdemos o Diogo Jota no verão anterior, recusei-me a acreditar. Estava a treinar sozinho em Portugal quando peguei no telemóvel e vi umas dez mensagens da Cláudia. Liguei ao Bruno. Enviei mensagens a toda a gente que pudesse saber alguma coisa. Mesmo quando a morte dele foi confirmada, parecia-me demasiado cruel para ser verdade. Poucas semanas antes tínhamos celebrado juntos a conquista da Liga das Nações. Ainda conseguia vê-lo ao meu lado. A levantar o troféu. A dançar debaixo da chuva de confetes. Tinha acabado de casar. Tinha três filhos maravilhosos. Aos 28 anos ainda tinha tanto para dar. Todos nós sabíamos que ele merecia ter jogado mais vezes pela Seleção, mas mesmo quando estava no banco era suficientemente humilde para ajudar a equipa. Ele até sabia os nomes dos árbitros. Quando o caixão saiu da igreja e vi o sofrimento da mulher dele, o meu coração partiu-se em mil pedaços. No autocarro da Seleção, o Diogo sentava-se sempre ao lado do Rúben Neves, o melhor amigo dele na equipa. Mas na fase seguinte, aquele lugar estava vazio. O Rúben estava sentado sozinho, e via-se que não sabia como lidar com aquilo. Nenhum de nós sabia. Acho que tudo o que podemos fazer é perseguir o sonho dele. Ele queria desesperadamente ver Portugal tornar-se campeão do mundo. Não vamos lutar apenas pelo nosso país. Vamos lutar pelo Diogo", concluiu.