Os camisola 9 e 10 exibem as suas transformações no Mundial
Antes de a bola começar a rolar a 11 de junho, o Grupo de Estudo Técnico (GET) da FIFA previu que o Mundial da América do Norte seria o palco onde se consolidaria uma tendência que já se faz sentir a nível de clubes.
As tarefas criativas recairiam sobre médios polivalentes ou jogadores de faixa. E a responsabilidade de marcar seria dos falsos noves ou dos extremos em vez dos avançados-centro, afirmaram os especialistas.
A transformação de duas posições vitais para popularizar o futebol deve-se à "pressão e intensidade" do futebol moderno, disse em maio Jon Dahl Tomasson, membro do GET.
Ambos os fatores obrigam os jogadores a possuir características diferentes das que tinham antigamente, acrescentou o antigo futebolista e treinador dinamarquês.
As previsões confirmaram-se ao longo do torneio, que entra esta semana que agora começa nas meias-finais entre Espanha-França e Inglaterra-Argentina.
Dos cinco principais goleadores, apenas o norueguês Erling Haaland é um 9 clássico.
Lionel Messi, Kylian Mbappé, Harry Kane e Jude Bellingham, os quatro restantes, ou não são avançados ou atuam nas alas, movimentam-se por diferentes zonas ofensivas e recuam para apoiar a construção.
Polivalência
As tarefas de criatividade e controlo, por sua vez, estão agora a cargo de extremos e médios de primeira linha.
Do Top 10 de jogadores com mais assistências, apenas Michael Olise atuou como um 10 clássico. No entanto, é rápido e desequilibrador, duas qualidades pouco comuns nos organizadores da velha guarda.
"O modelo de jogo, a estrutura das equipas e a tendência que os treinadores procuram é de jogadores velozes que atuem nas alas", disse à AFP o antigo médio ofensivo brasileiro Zinho.
"São atacantes com mobilidade, que desempenham mais do que uma função, por isso há cada vez menos 9", acrescentou o campeão do mundo em 1994.
No topo da tabela de goleadores juntamente com Messi, ambos com oito golos, Mbappé é o avançado da imbatível França de Didier Deschamps. Mas o capitão francês não se limita a ser uma referência na área, movimenta-se por toda a frente, pressiona os adversários e integra-se no temível tridente que completam Olise e Dembélé.
"O 9 já não é aquele jogador que apenas fica na área. Tem de aprender a recuar (para ajudar a defender), marcar um médio, jogar, criar. Por isso, temos menos jogadores com o perfil de homem de área, o finalizador", explicou Zinho.
"O 10 está a desaparecer"
Os dois finalistas da última Liga dos Campeões, o Paris Saint-Germain e o Arsenal, ilustram este modelo: ambas as equipas costumam jogar sem pontas-de-lança clássicos.
Replicam a experiência europeia os adversários dos Bleus nos quartos e meias-finais do Mundial, Marrocos e Espanha, que optam por um médio como falso nove ou um extremo como referência.
Muitas seleções também jogaram sem um 10 à moda antiga, sem aquele maestro com grande visão de jogo e toque refinado, mas com limitações físicas.
As seleções que evitaram alinhar um médio ofensivo geralmente apostaram numa linha de três no meio-campo. Os médios polivalentes assumiam então a condução da equipa.
"Hoje em dia o 10 recua um pouco ou joga numa ala, com o perfil invertido", observou Zinho. "Isto faz com que desapareça o jogador centralizado, o criativo".
Três dos quatro semifinalistas optaram, no entanto, por organizadores modernos – com sacrifício defensivo – como Dani Olmo, Jude Bellingham e Olise.
O francês costuma atuar como extremo no Bayern Munique, embora a sua posição natural seja a de médio ofensivo.
A Argentina, por sua vez, tem em Messi um jogador semelhante aos antigos criativos, embora a Pulga tenha desenvolvido grande parte da sua carreira como extremo ou falso nove.
"Mas o 10 já há muito que é difícil de encontrar", afirmou à AFP o antigo avançado Walter Casagrande, mundialista com o Brasil em 1986.
"Jogadores que pensam o jogo, que dão ritmo ao jogo, que fazem passes de ruptura, esse tipo mais clássico, há muito poucos. O número 10 está a desaparecer".