Mundial-2026: "A regra Mbappé" ou quando um França-Espanha reescreve as regras do futebol
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10 de outubro de 2021, em San Siro: Théo Hernandez lança Kylian Mbappé em profundidade, o número 10 dos bleus está em posição de fora de jogo, todo o estádio vê isso. Mas Eric Garcia, ao tentar cortar a trajetória, toca na bola com a ponta do pé. O árbitro Anthony Taylor deixa seguir, o VAR valida, e o golo dá à França a sua primeira Liga das Nações frente à Espanha.
Quatro anos depois, esta jogada continua a influenciar a forma como os árbitros de todo o mundo interpretam a lei do fora de jogo.
No momento, a polémica é imediata. Sergio Busquets, capitão espanhol nessa noite, não compreende a decisão e critica uma leitura da regra que, segundo ele, não faz qualquer sentido. Na sua opinião, Garcia nunca teve intenção de jogar a bola, limitou-se a falhar o corte. O próprio defesa espanhol admitiu à Cope mais tarde ter "apenas roçado" a bola, antes de lhe explicarem que esse contacto era suficiente, segundo o regulamento, para colocar Mbappé em jogo.
Uma regra clarificada e não alterada
A lei 11 sobre o fora de jogo prevê, de facto, que um avançado em posição irregular não é sancionado se receber a bola de um adversário que a tenha "jogado deliberadamente". O problema é que ninguém estava de acordo sobre o que era considerado um gesto deliberado e o que era apenas um desvio instintivo.
Esta indefinição não era nova, mas a dimensão do acontecimento, uma final da Liga das Nações perdida por este detalhe, obrigou as instâncias a reagir. Logo na sexta-feira seguinte à final, Roberto Rosetti, responsável pela arbitragem na UEFA e membro do conselho do IFAB, valida a decisão de Anthony Taylor, considerando que tomou a decisão correta, baseada na regra existente e na sua interpretação oficial. Mas abre de imediato a porta a uma evolução do texto, considerando que a interpretação em vigor contraria o espírito da própria lei do fora de jogo. Anunciou contactos com os homólogos da FIFA e do IFAB para iniciar uma reescrita das linhas orientadoras.
Essa alteração chega no verão seguinte. Em julho de 2022, o IFAB e a FIFA publicam uma circular que não altera o texto da lei, mas clarifica de forma rigorosa a sua aplicação. Agora, é necessário que um defesa tenha um controlo real da bola, e não apenas um contacto, para que o avançado seja colocado em jogo. Os critérios definidos são concretos: a bola deve vir de longe e ser claramente visível, não pode chegar demasiado rápido, não pode surpreender o defesa na sua direção, e este deve ter tido tempo para coordenar o gesto em vez de esticar a perna por reflexo. Uma bola tocada no solo é também considerada mais fácil de controlar do que uma bola aérea.
Reanalisando a jogada de San Siro com esta nova perspetiva, a ação de Garcia, uma extensão instintiva da perna para desviar um passe rápido, já não seria considerada um gesto deliberado. O golo de Mbappé, atualmente, seria anulado.
Foi por isso que esta clarificação ficou conhecida em parte da imprensa como "a regra Mbappé", mesmo que o IFAB, no seu vocabulário oficial, tenha sempre insistido que não se tratou de uma alteração da lei, mas sim de uma clarificação das linhas orientadoras.