Mundial 2026: Uzbequistão, uma estreia que consagra o crescimento do futebol
No fim de maio, cerca de trinta mil espectadores reuniram-se no estádio nacional em Tasquente, capital do Uzbequistão, para aplaudir os "Lobos Brancos" num jogo de gala antes da partida para a América do Norte, onde vão enfrentar Portugal, Colômbia e a República Democrática do Congo no grupo K.
Para os uzbeques, esta cerimónia foi uma oportunidade rara de ver a nova estrela do país e defesa do Manchester City, Abdukodir Khusanov, o médio criativo Abbosbek Fayzullaev e o avançado experiente Eldor Shomurodov, os melhores elementos de uma seleção composta maioritariamente por jogadores do campeonato local.
Abdousaïd Rouzimatov, estudante de 22 anos abordado pela AFP no estádio, considera que a seleção está "equilibrada" com "jogadores tecnicamente dotados no meio-campo e no ataque" e "defesas fiáveis".
"Se olharmos para os últimos anos, não só a seleção A, mas também as camadas jovens, as nossas seleções nacionais são agora as melhores da Ásia", afirma o estudante.
O sucesso das seleções uzbeques acompanha o projeto do "Novo Uzbequistão" do presidente Chavkat Mirzioïev, cujas reformas visam liberalizar, desenvolver e dar a conhecer esta ex-república soviética, ainda marcada por traços autoritários.
Objetivo Taça da Ásia
A qualificação para o Mundial foi em parte possível graças à passagem de 32 para 48 equipas participantes no torneio. Mas também confirma a progressão da seleção número 50 no ranking FIFA, que beneficia de uma estratégia governamental de longo prazo iniciada há cerca de uma década para desenvolver o futebol através da formação de jovens.
De facto, o Uzbequistão pode contar com um enorme viveiro de potenciais futebolistas, com cerca de um terço dos aproximadamente 37 milhões de habitantes com menos de vinte anos. Aproveitando as seleções jovens que venceram nos últimos anos as Taças da Ásia (sub-23, sub-20, sub-17), a equipa A afirmou-se como um valor seguro do futebol asiático e conta agora com especialistas europeus para dar o salto de qualidade.
"Acho que a nossa equipa é especialmente forte na defesa. O nosso selecionador, Fabio Cannavaro, foi defesa, por isso reforçou esse setor", acredita Bekmourod Khaidarov, médico de 57 anos.
Nomeado no ano passado, o campeão do mundo italiano e Bola de Ouro 2006 Fabio Cannavaro não estabelece qualquer objetivo para a sua equipa.
"É a nossa primeira Taça do Mundo. Por isso, não devemos colocar demasiada pressão sobre os jogadores, mas sim transmitir-lhes o prazer do jogo", declarou a meio de maio numa rara conferência de imprensa neste país, onde os meios de comunicação são fortemente controlados.
Para ele, o torneio norte-americano deve servir de ensaio geral para a Taça da Ásia 2027 para esta seleção ainda inexperiente ao mais alto nível.
"Uma das minhas principais ambições é conquistar a Taça da Ásia (...). O Mundial é uma forma de ganhar experiência, enquanto lutaremos para alcançar resultados na Taça da Ásia", avisou o técnico.
"Prestígio internacional"
Para o governo uzbeque, ter colocado o país no mapa do futebol já é uma vitória. Participar no Mundial "contribui para reforçar o prestígio internacional do Novo Usbequistão", afirmou o presidente Mirzioïev em 2025, antes de voltar a elogiar os jogadores no final de maio, afastando também qualquer pressão.
"Os nossos futebolistas podem, com toda a justiça, ser considerados os heróis do nosso tempo, tendo aberto uma nova página na história do Usbequistão", congratulou-se Mirzioïev, de 68 anos, no poder desde 2016 e podendo permanecer até 2037.
Segundo Chavkat Mirzioïev, "os futebolistas tornaram-se um verdadeiro exemplo para a juventude, para as personalidades do mundo literário e artístico, para os empresários e para o grande público, que continuam a inspirar-se nesta conquista histórica".
O dirigente não pretende ficar por aqui e acaba de anunciar um programa para os bairros residenciais, onde o futebol deverá tornar-se uma "plataforma de educação dos jovens e de promoção de um estilo de vida saudável, da disciplina e do patriotismo".