Mundial 2026: Peritos advertem para período de risco para dependentes de apostas

Mundial 2026: Peritos advertem para período de risco para dependentes de apostas

"Esta celebração conjunta é encarada como uma ocasião para cativar uma audiência mais jovem, com menos interesse por futebol durante o resto do ano, para as apostas desportivas", declarou à agência AFP o sociólogo francês Thomas Amadieu, que escreveu um livro sobre o assunto.

De acordo com ele, o Mundial constitui "um período perigoso", no qual "a promoção das apostas se torna progressivamente mais eficiente", potenciada pelo crescimento da publicidade, de prémios e de ações com influenciadores. "Em escassos anos, as apostas vulgarizaram-se. Ligar apostas desportivas ao desporto configura uma enorme transformação sociológica e revela-se bastante complicado romper esse elo", sublinhou Amadieu.

O investigador faz uma comparação entre este fenómeno e a ligação estabelecida pela indústria do tabaco entre o cigarro e noções de liberdade, desobediência e satisfação.

"No entanto, certos desportistas, como Kylian Mbappé, encaram como negativa a associação da sua imagem com marcas de apostas desportivas. As apostas podem igualmente provocar pressão e observações hostis nas plataformas digitais quando os atletas não alcançam o rendimento esperado", adicionou.

Quem está mais exposto

Uma faixa populacional suscetível à dependência das apostas é constituída pelos residentes de zonas mais desfavorecidas, onde a oferta de dinheiro rápido pode ser particularmente sedutora.

"Nos bairros de baixa renda circulam mensagens que podem desencadear determinados mecanismos: aceitação social, evasão do dia a dia e a oportunidade de obter dinheiro de forma rápida", esclareceu Amadieu.

As organizações apelam a normas mais severas e limitações à publicidade, ao contrário de depositarem confiança na autorregulação das companhias do ramo.

"A indústria que causa os prejuízos mostra-se como a resposta para o problema, com o intuito de impedir normas mais protetoras para os jogadores", criticou o sociólogo. "Um número crescente de nações limita a publicidade e a disponibilização de jogos", finalizou.

Limitações no Reino Unido

Num acontecimento com forte repercussão social, os jovens permanecem particularmente expostos à promoção de apostas nas plataformas digitais e nos locais públicos.

No Reino Unido, a promoção de casas de apostas encontra-se vedada desde cinco minutos antes até cinco minutos após os jogos. Certas organizações encaram a medida como benéfica, porém insuficiente.

"Deveria vigorar desde uma hora antes até uma hora após os jogos", defendeu à AFP Myriam Savy, diretor da organização Addictions France. Sugere igualmente evitar que companhias do ramo recorram a patrocínios para ultrapassar limitações à promoção.

Na perspetiva de Amadieu, as táticas comerciais das firmas podem representar uma cilada especialmente para adolescentes.

"O cérebro destes ainda não se encontra desenvolvido, por isso possuem maior probabilidade de perder o controlo", explicou. De acordo com o sociólogo, isto pode conduzir jovens a apostar mais do que planeavam, tentar reaver perdas, acumular dívidas, solicitar empréstimos, experienciar ansiedade e enganar as suas famílias.

"Introduzir os jovens no mundo das apostas representa, para as operadoras, assegurar uma plateia por vários anos", declarou.