Exclusivo com Duverne, às portas da história com o Haiti: "52 anos à espera, agora vamos lutar"
Há qualificações que valem mais que troféus. A do Haiti para o Mundial de 2026 é uma delas. Cinquenta e dois anos depois da única presença numa fase final, em 1974, os internacionais pela pérola das Antilhas garantiram o bilhete para os Estados Unidos, Canadá e México, no final de um percurso que mobilizou todo um povo.
Jean-Kévin Duverne, defesa-central emprestado ao La Gantoise pelo Nantes e peça-chave dos granadeiros, representa esta geração que mudou o rosto do futebol haitiano. Antes de defrontar o Brasil, Marrocos e a Escócia, concedeu uma entrevista exclusiva ao Flashscore.
- O Haiti disputa o seu primeiro Mundial desde 1974. Quando soube que o Haiti estava qualificado, o que sentiu?
Sim, sinceramente, primeiro Mundial desde 1974, já lá vão 52 anos que o povo, nós, haitianos, os jogadores, as nossas famílias, esperávamos por isto. E sinceramente, o sentimento é enorme. Nem consigo explicar, porque ainda não me caiu a ficha. A competição está quase a começar, mas acho que só vou perceber mesmo no momento do primeiro jogo.
- Disse ao Flashscore em 2024 que era "um sonho jogar o Mundial, obviamente como para qualquer jogador, mas também enquanto haitiano porque o país espera isto desde 1974". Agora que é real, o sonho mudou de forma?
Sim, é verdade que em 2024 disse que era um sonho jogar o Mundial. Agora estamos nesta competição, é mesmo inacreditável. Todos os jogadores estamos entusiasmados por saber que vamos defrontar o Brasil, Marrocos e Escócia, são equipas fantásticas, vamos dar tudo.
O sonho mudou de forma? Não, porque o sonho continua presente, e agora tornou-se ainda mais real. Conseguimos a qualificação, fizemos tudo para lá chegar. Agora, vamos lutar e mostrar ao mundo inteiro que somos uma grande equipa, que temos resposta e que estamos prontos para tudo para fazer boa figura nesta competição.
- Brasil, Marrocos, Escócia… qual foi a sua reação quando soube deste grupo?
Para ser honesto, ri-me. Já era um primeiro passo termos conseguido a qualificação, e o sorteio foi bem mais tarde, mas foi emocionante esperar para saber qual seria o nosso grupo. Estar qualificado para esta competição já era incrível por si só. E depois calham-nos Brasil, Marrocos, Escócia – o que se pode pedir mais? Jogar contra equipas deste nível é maravilhoso.
- Qual é o adversário que mais teme entre os três?
Sinceramente, nesta fase, todos são adversários difíceis. São grandes equipas, não vale a pena mentir. Vamos apenas jogar o nosso futebol, e é isso.
- Vai ter de marcar o Vini…
Marcar Vinicius, McTominay, Rafinha, Hakimi… são todos grandes jogadores. Vai ser toda a equipa a marcar todos os adversários. Vamos apenas jogar o nosso futebol – qualquer adversário que esteja na nossa zona será para marcar.
- Há outro jogador adversário que tenha vontade de defrontar?
Qualquer jogador, sinceramente. Só o facto de jogar esta competição já é incrível. Desde que façamos uma boa competição e cheguemos longe, todos os adversários são bons para defrontar. Não vamos escolher – o que vier, teremos de enfrentar.
- Qual é o objetivo concreto que define para si e para a equipa neste Mundial?
Primeiro, um objetivo coletivo, porque qualificámo-nos juntos. Acho que temos de reforçar isso ao longo de toda a competição – a coesão da equipa é fundamental. Se formos fortes coletivamente, as individualidades vão sobressair naturalmente.
- Nasceu em Paris, vestiu a camisola da França sub-20. Como viveu a escolha de representar o Haiti?
Foi uma escolha fácil, sinceramente. Sobretudo para a minha família, que ficou muito feliz por me ver representar o país. Seja a minha mãe, os meus irmãos, as minhas irmãs, a minha mulher, até os meus filhos. Vê-los felizes é um orgulho. E do lado do povo haitiano, sente-se muito amor, muita energia quando és chamado. Toda a força que te transmitem em cada jogo… foi uma excelente escolha da minha parte, não me arrependo de nada.
- A seleção haitiana cresceu muito com a chegada de jogadores com dupla nacionalidade. Sente que houve uma verdadeira transformação deste grupo nos últimos anos?
Sim, é verdade que crescemos muito. Há muito mais qualidade na equipa, mas também já havia antes – isto acrescenta algo mais. Agora, temos de encontrar os automatismos e a coesão do grupo – é isso que vai ser a nossa força.
- O que representa o Haiti para si no dia a dia, fora do futebol?
Somos guerreiros, não nos deixamos ir abaixo. No dia a dia, é sempre uma luta. Sabem bem que a vida no país é difícil, que muitos não têm essa qualidade de vida e, mesmo assim, vê-se muita gente a sorrir, com ânimo, feliz apesar de tudo. Acho isso muito, muito forte.
Penso neles constantemente, porque a situação do país é muito complicada, e isso afeta-nos diariamente a mim, aos meus colegas, a todos os haitianos. É triste, mas ao mesmo tempo vê-se que não desistem. Alguns estão dispostos a pagar o bilhete para nos ver jogar em vez de irem comer. É um contexto difícil, mas temos de lidar com isso. Não se pode ter tudo na vida, por isso não vale a pena queixar-se. É tudo o que tenho a dizer.