Entrevista Exclusiva com Keith Hackett: A Pressão Mundialista e os Árbitros como Gestores de Eventos
O antigo responsável pela PGMOL será o especialista do Flashscore em arbitragem durante o Mundial de 2026, analisando minuciosamente as prestações dos juízes.
Este Mundial terá 104 partidas, abrangendo a maior extensão geográfica de sempre num torneio. Como é que este volume de jogos de alto risco afeta psicologicamente os árbitros? O cansaço torna-se um fator ou a adrenalina é suficiente para os manter até ao fim?
A competição pela nomeação é intensa e extremamente competitiva. As prestações dos árbitros foram cuidadosamente monitorizadas ao longo de vários anos e submetidas a uma análise rigorosa. Pierluigi Collina e o Diretor de Arbitragem da FIFA, Massimo Busacca, organizaram diversos workshops para monitorizar a condição física e trabalhar para uma aplicação uniforme das leis do jogo. A preparação inclui também interação online e testes sobre as leis, com recomendações sobre preparação física e nutrição. Os testes físicos são realizados sempre que se reúnem, com cada árbitro a receber apoio físico e psicológico. Cientistas da visão também colaboram, avaliando aspetos como a visão periférica. Durante os jogos, a distância percorrida pelos árbitros é monitorizada, assim como os perfis de velocidade e movimento. As estatísticas de recuperação também são avaliadas, para garantir que nenhum árbitro é designado para um jogo se apresentar sinais de fadiga. Espero ver árbitros a percorrer uma média de 11,5 quilómetros por jogo, com mais de 1.000 metros de sprints dinâmicos a velocidades superiores a sete metros por segundo. E a qualidade das decisões corretas resume-se a quatro aspetos: ver, reconhecer, pensar e agir. Quando liderava a PGMOL, podia aceder aos perfis de movimento e velocidade durante um jogo. A FIFA terá estatísticas semelhantes recolhidas em cada atuação. Uma área que espero que tenha sido devidamente tratada são os jogos agendados no México. O Azteca está a 7.000 pés acima do nível do mar, por isso é fundamental incluir preparação e aclimatização adicionais no processo de nomeação para esses encontros. O árbitro da Premier League Jarred Gillett está entre os selecionados para atuar no papel de VAR, a partir do Centro de Controlo de Jogos em Dallas.
A final do Mundial é o auge para qualquer árbitro. O que distingue aqueles que brilham dos que sucumbem ao peso do momento?
Muitos dos árbitros selecionados são considerados os melhores do seu país e alguns são os melhores de toda a sua confederação. Já dirigiram centenas de jogos, adquirindo a experiência e os mecanismos necessários para lidar com uma nomeação para o Mundial. Ao mais alto nível, os árbitros são gestores de eventos. Não basta garantir uma prestação elevada na aplicação das leis do jogo, é também necessário gerir conflitos e o comportamento dos jogadores, além de assegurar que o jogo começa exatamente à hora marcada. Antes do apito inicial, na troca das fichas das equipas, há uma reunião com a segurança para abordar possíveis situações e os "e se" que fazem parte do plano pré-jogo. A equipa de arbitragem também realiza uma reunião detalhada para planear a sua atuação, incluindo uma discussão aprofundada sobre o papel do árbitro assistente, do VAR e do quarto árbitro.
Com 170 árbitros envolvidos em 104 jogos, quão importante é a consistência entre o árbitro de campo e a equipa do VAR?
Os árbitros selecionados participaram em vários workshops da FIFA e integraram um programa de formação online, analisando diversos incidentes. São exibidos vídeos com o objetivo de alcançar consistência nas decisões. Incidentes de mão na bola, faltas avaliadas desde imprudentes até jogo violento, agarrões nos cantos, fora de jogo, tudo é abordado e discutido em detalhe para garantir uniformidade entre o grande grupo de árbitros. Os operadores de VAR receberam formação adicional com o mesmo objetivo. Quem não cumprir as instruções de Collina e Busacca pode acabar por regressar a casa mais cedo. A complicação adicional é a implementação das novas Leis do Jogo, o que acrescenta mais uma camada de preparação para todos os envolvidos.
Os árbitros estão sob mais escrutínio do que nunca, com câmaras a analisar cada decisão em segundos. Essa exposição torna o trabalho fundamentalmente diferente do que viveu?
O jogo mudou drasticamente desde que arbitrei o meu último jogo em 1995, após 23 anos ao mais alto nível. Estive envolvido na criação do primeiro grupo de árbitros profissionais, convencendo a Premier League a investir no que viria a ser a PGMOL. Com a ajuda da ciência do desporto, da psicologia do desporto e de um cientista da visão, esse investimento elevou consideravelmente os padrões. Introduzi também três tecnologias para ajudar na tomada de decisões: kits de comunicação que permitem aos árbitros e assistentes falar entre si; tecnologia da linha de golo, em colaboração com o Professor Paul Hawkins da Hawkeye e Mike Foster, Diretor da Premier League, com o antigo diretor do Arsenal David Dein a desempenhar um papel fundamental ao convencer o Secretário-Geral da FIFA, Sepp Blatter, a aprovar; e o Prozone Referee, que fornece análises de desempenho dos árbitros. Com operadores de VAR especializados e o sistema de fora de jogo semi-automatizado já em funcionamento, juntamente com o chip Adidas na bola, espero que se veja uma melhoria significativa na atuação do VAR. Espero também que as ligações de comunicação entre o centro do VAR em Dallas e os estádios no México e no Canadá funcionem sem problemas.
Szymon Marciniak arbitrou a final do Mundial de 2022 e regressa em 2026. Existe o risco de se confiar demasiado em nomes já estabelecidos ou a experiência a este nível é simplesmente insubstituível?
A experiência é um trunfo muito positivo na arbitragem e na vida em geral. Marciniak tem uma vasta experiência e trará conhecimentos valiosos aos seus colegas, sendo o próprio Collina, claro, um antigo árbitro de uma final do Mundial. Ter centenas de jogos no currículo é uma enorme vantagem para lidar com as pressões que surgem durante uma partida. A experiência permite atuar com menos ansiedade quando surge uma decisão importante, tomá-la com precisão e transmiti-la com autoridade. Permite ler o jogo, posicionar-se da melhor forma e gerir os jogadores e o evento com calma.
A Inglaterra conta com Anthony Taylor e Michael Oliver no torneio. Qual deles considera mais apto para as exigências do futebol a eliminar ao mais alto nível?
Ambos são os dois melhores árbitros da Premier League e já dirigiram grandes jogos a nível nacional e internacional. São muito bem preparados fisicamente e atuam de forma madura e serena. Anthony Taylor ganhou reconhecimento internacional quando Christian Eriksen sofreu uma paragem cardíaca durante o jogo da Dinamarca frente à Finlândia no Euro 2020. O papel de Taylor ao garantir a entrada rápida da equipa médica no relvado foi elogiado em todo o mundo. Michael Oliver é um árbitro de grandes jogos, perfeitamente adaptado ao palco mundial, com capacidade para elevar o seu desempenho nos momentos decisivos. Demonstra grande maturidade e compostura quando arbitra e vai apreciar este torneio. Ambos merecem estar presentes.
Daniel Siebert arbitrou a final da Liga dos Campeões mas não foi chamado para o Mundial. Ficou surpreendido?
A FIFA terá recebido relatórios detalhados sobre o desempenho de Siebert tanto a nível nacional como internacional. A sua nomeação para a final europeia foi um sinal claro de que o Diretor de Arbitragem da UEFA o valorizava muito, e a sua prestação foi excelente. A confiança que Rossetti depositou nele foi justificada. A desilusão que deve ter sentido por ficar de fora é devastadora. Deveria estar no Mundial. Dito isto, demonstra o quão competitiva é a arbitragem ao mais alto nível. Existem muito poucas vagas e as diferenças entre quem entra e quem fica de fora são mínimas. Já vivi muitos grandes jogos e não seria humano se, nos minutos no balneário antes do apito inicial, não sentisse pressão. Tinha o hábito de fazer a barba dez minutos antes de tocar a campainha e depois sentar-me em silêncio, de olhos fechados, a visualizar o jogo que se aproximava. Não há melhor sensação do que olhar para o relvado antes do início e contemplar os grandes jogadores que está prestes a gerir.
A arbitragem é uma das poucas funções no desporto em que um erro é imediatamente visível para milhões e repetido vezes sem conta. Que conselhos dá aos jovens árbitros para lidarem com os erros e recuperarem?
Os árbitros são humanos e vão cometer erros. O importante é deixar imediatamente para trás qualquer erro que sinta ter cometido, ali mesmo no relvado durante o jogo. Se o mantiver no centro das suas preocupações, o seu desempenho e concentração vão baixar. A confiança diminui, a linguagem corporal torna-se negativa e surgem mais erros. A capacidade de recuperar no momento é uma das competências mais importantes que qualquer árbitro pode desenvolver, e é algo que só se adquire verdadeiramente com a experiência.