Entrevista exclusiva com Esther Sullastres. É doloroso assistir à queda de um clube histórico como o Sevilha
Que avaliação faz da temporada do Sevilha até ao momento?
De um modo geral foi um ano positivo embora tenhamos enfrentado uma série negativa com seis derrotas. Considero que dada a constituição da equipa superámos um pouco as previsões iniciais tanto no que respeita ao grupo de jogadoras como à comissão técnica e à direção. É certo que realizámos uma campanha muito satisfatória com o quinto lugar e agora baixámos um pouco mas no geral foi uma boa época.
Há alguns anos o número de jogadoras diminuiu e o orçamento da secção feminina reduziu ligeiramente. Tornou se cada vez mais difícil competir na Liga F e conseguimos manter nos a meio da classificação ou mesmo acima em diversos períodos do ano. Por isso acho que a temporada foi favorável. Espero que agora possamos fechar com vitórias.
Quais são na sua opinião os motivos para a descida da equipa?
Não sei pois o grupo trabalha bem. Existem semanas de preparação que correm muito bem e chegamos ao encontro com bastante confiança. Depois não conseguimos marcar o golo. Também é verdade que muitas vitórias iniciais foram por margem mínima sem percebermos bem como chegámos ao triunfo. Portanto aquela dose de sorte que tínhamos antes já não aparece agora. Não consigo explicar. A equipa esforça se e muitas vezes o plano traçado não resulta mas se não marcarmos.
Embora ainda seja cedo se a equipa continuar a evoluir um dos alvos para a próxima temporada poderá ser a qualificação europeia?
Espero que sim. Estou no Sevilha há cinco anos e já vivi de tudo. Houve campanhas em que o projeto era mais modesto e o propósito era apenas evitar a descida sem que isso causasse surpresa. Noutras existiu um projeto ambicioso com contratações de elevada qualidade.
Há algumas temporadas tínhamos um plantel forte com Amanda Sampedro Silvia Meseguer Lucía Rodríguez María Pérez Martín Prieto e não correu bem. Depois também se afirmou abertamente o desejo de chegar à Liga dos Campeões mas falhámos no início e no fim terminando em oitavo lugar. Foi realmente um desaire.
Acho que a conjuntura do clube também no plano institucional não favorece projetos ambiciosos. Todos percebemos que se está a restringir um pouco os gastos e esperamos ter oportunidades. Gostaria que houvesse um maior leque de competições europeias tal como no futebol masculino e não só a Liga dos Campeões. Queria que isso acontecesse igualmente no futebol feminino para termos mais alvos a perseguir. Agora por vezes em janeiro já está tudo decidido.
É complicado conservar a motivação quando a manutenção já está assegurada há várias semanas?
É igualmente difícil para a comissão técnica pois considero que é necessária uma gestão cuidadosa dos minutos para que todas as companheiras se mantenham envolvidas evitando que exista um onze fixo e se retirem jogadoras. Depois quer a nível mental quer físico o profissionalismo e a ambição são levados por cada atleta quer para atingir marcas pessoais quer para tentar chegar à seleção por exemplo. Existem inúmeras razões para dar sempre mais. Obviamente esta temporada pretendíamos ultrapassar os valores das anteriores mas depois atravessámos uma fase negativa e agora estamos um pouco como nos anos passados.
Observe se o caso do Espanyol masculino quem imaginaria que após a primeira volta realizada estariam onde estão agora. No fim é preciso aproveitar ao máximo os bons períodos e as boas campanhas porque nunca se sabe quando as coisas mudam.
A influência da equipa masculina
A equipa masculina foi finalmente salva. Sofreram porque se descessem isso poderia ter efeitos negativos?
Sim a secção masculina sustenta todas as restantes do clube e acho natural que tenha existido essa preocupação no ambiente sentida não apenas por nós da secção feminina mas também por outros setores como os que trabalham nos escritórios.
Para mim foi uma pena porque o Sevilha é uma equipa histórica grande com títulos europeus e esta situação é dolorosa porque no futebol contam os resultados quanto mais se vence mais se vence e os maus momentos obrigam a cortes.
O tempo com Espanha
Passando agora à seleção nacional já foi convocada várias vezes e esteve no Campeonato da Europa qual foi a sensação após a final e como viu a alteração no banco?
Fiquei admirada pois não esperava a mudança de Montse. No fim chega se a um Campeonato da Europa e penso que foi realizado um bom trabalho. Tentei afastar me um pouco das redes para me focar no dia a dia e no ambiente. Mas sei que o país ficou fascinado com o Europeu que teve grande impacto e que no final só se falava de futebol. Acho que foi um jogo excelente e não se perde nenhum encontro.
Na final perde se por detalhes por um erro de posicionamento no golo que nos marcaram e vai se para os penáltis. Não acho que tenha sido algo especial dizer que estávamos a passar sem o treinador. Eu era relativamente nova estava apenas há um ano depois de sete anos sem ir e não conheço o âmago do trabalho não sou capitã e não estou tão implicada como posso estar no Sevilha onde sou capitã.
Portanto não sei muitas outras coisas talvez questões extra desportivas que não vos posso revelar porque não me compete envolver me nem sei nada sobre elas mas fiquei surpreendida. É isso que posso afirmar.
Quando estava na seleção sabia mais ou menos que ia ter poucos minutos como encara um papel que também é relevante a nível do balneário e da equipa?
Estava muito contente por estar lá e muito grata. Há sete anos que não ia e nesses sete anos senti que merecia regressar. Por isso sei como é difícil sei que muitas vezes estar numa seleção tem a ver com a integração num grupo com o que se traz para dentro e para fora e com os nossos valores. Custa muito desfazer um grupo já formado para introduzir novas jogadoras e compreendo o esforço que tive de realizar para estar presente.
Dito isto e uma vez lá gostei do dia a dia dos treinos das viagens dos amigáveis dos jogos de competição não direi que não me importei de não jogar mas senti me suficientemente preparada quer a nível tático quer técnico porque estava em excelente forma e não me senti inferior às minhas colegas na baliza. Por outras palavras senti me igualmente preparada. Cada uma era a melhor à sua maneira e eu também me sentia a melhor em muitas coisas estando à espera da minha oportunidade.
Devido ao momento em que me encontrava tenho a certeza de que teria gostado de atuar e de dar o meu melhor. Não tenho qualquer dúvida. Estava apenas à espera da minha vez mas também me senti muito valorizada e muito querida.
Que expetativas temos para Espanha nos próximos torneios?
Espero que Espanha se saia muito bem. Formou se uma equipa que também procura soluções diferentes talvez menos no toque de bola e mais a jogar nos espaços a colocar bolas na área. Também se está a construir um grupo novo com jogadoras muito jovens que não sei se darão resultados imediatos espero que sim mas está a preparar uma geração que chega forte e capacitada desde a base. Desejo lhes muito sucesso.
Porque diz que as quer? Não se vê no Brasil?
Não não me vejo lá. Quer dizer gostaria imenso de me ver mas considerando as convocatórias do novo treinador não estão a contar comigo. Estou sempre no grupo e gostava de ser vista a treinar de ser vista com as minhas companheiras mas no final o que tenho de fazer é concentrar me no meu dia a dia no Sevilha realizar bons jogos inverter esta fase negativa que atravessamos e tenho a certeza de que quanto melhores forem os resultados do clube melhores serão para todas nós individualmente.
O que aprendeu com a final do Europeu?
A nível desportivo também não saberia como resolver pois foi um erro de marcação. Não vi muito esse jogo em repetição mas para mim foi um engano. Portanto fez se uma tentativa. É verdade que se podem dizer mil coisas mas a minha aprendizagem foi mais por ter vivido uma experiência profissional de elite como se prepara um jogo como é aquela semana de treinos como se enfrenta um adversário mais físico como se encara um rival mais tático. Ou seja retirei muitas aprendizagens que tento transmitir ao clube para o bem de todos.
Há alguns anos esteve no Barça onde ganhou o campeonato e a taça como viu a evolução do clube e da equipa ao longo dos anos?
Brutal. Porque eu estava lá quando o clube não era profissional. Tínhamos um campo artificial ao fim da tarde cada uma trazia a sua garrafa de água não havia balneários. Posso contar mil e uma coisas mas não era profissional. E quem diria que o Barça seria pioneiro no futebol internacional ao nível de dominar a Europa vencer a Liga dos Campeões estar em não sei quantas finais consecutivas com jogadoras reconhecidas mundialmente com os seus patrocinadores economicamente ao nível das equipas de futebol masculino muitas delas a ganhar Bolas de Ouro. E merecem. Falamos de outra dimensão que acho ninguém antecipava porque o que vivi então foi um futebol totalmente amador.
E como vê a equipa agora Elas têm a final da Liga dos Campeões na próxima semana.
Bem mas não sei como é o dia a dia. No fim temos jogadoras e muitas jovens que subiram da equipa de reservas mas são pessoas que estão prontas e que atuam de imediato. Por isso vejo as a sair se bem. É claro que será uma final difícil contra o Lyon. Vamos ver como corre.