Entrevista Exclusiva com Desailly: Portugal como a Surpresa do Torneio e o Papel de Carlos Queiroz no Gana

Entrevista Exclusiva com Desailly: Portugal como a Surpresa do Torneio e o Papel de Carlos Queiroz no Gana

A França inicia a sua campanha com um duelo complicado frente ao Senegal em Nova Jérsia na próxima semana e, antes do torneio, o antigo jogador do Chelsea e do AC Milan, que é agora também embaixador da FIFA, falou em exclusivo ao Flashscore.

Partilhou as suas expetativas para o Mundial enquanto colaborador da organização, como vê o desempenho da França e das seleções africanas, e muito mais!

- Vimo-lo em ação antes do Mundial no seu papel de embaixador da FIFA. Quais são as suas expetativas para este Mundial num continente em que o futebol não é o desporto principal?

Tenho muito orgulho em ser embaixador da FIFA porque ainda há muito por fazer. Mesmo sendo o futebol o melhor desporto do mundo, ainda temos muito mercado por conquistar: Índia, China, Nova Zelândia, Austrália, Amérrica, Canádá, Tailândia. Não somos o desportro principal nesses países. Há quatro ou cinco desportos à nossa frente, por exemplo, na Amérrica. Têm basquetebol, futebol americano, basebol e hóquei. Portanto, é o que é. É bom regressar pela primeira vez desde 1994. Estivemos afastados da Amérrica e existe uma grande diferença entre a perceção que temos e a realidade no terreno.

Acreditamos que o Mundial é tudo. Mas, se olharmos bem, percebemos que, na Amérrica, a loucura pelo Mundial não é assim tão grande. Os estádios estão cheios, mas, no fundo, nas cidades dos EUA, não há propriamente essa loucura. Fizeram um bom trabalho. Criaram um novo sistema para vender bilhetes online e permitir a revenda, o que deu um impulso ao nível das receitas. Mas há uma verdadeira missão para o Canádá e para a Amérrica de aumentar o interesse pelo futebol.

Ter agora 48 equipas no sistema é bom e mau ao mesmo tempo. Dá acesso a mais jogos, para captar mais atenção das pessoas. Tenho um dado estatístico. O dado é que a exposição de cada jogo do Mundial na Amérrica, Canádá e México será equivalente à do Super Bowl na Amérrica. Está super exposto a nível mundial e estamos ansiosos por isso.

- Onde colocaria a França entre os candidatos ao troféu neste momento, a poucas semanas do torneio, especialmente olhando para equipas como a Argentina, Espanha, Brasil e Inglaterra?

Vi o jogo particular frente ao Brasil (vitória por 1-2, em março). Há uma diferença de qualidade entre as equipas. E agora, com o Neymar de regresso, talvez o Brasil suba ainda mais de nível. Mas a primeira perceção que todos temos é que a França tem um plantel incrível. Quando olhamos para os jogadores que compõem a equipa, não há outra seleção que possa afirmar ter jogadores tão poderosos no seu conjunto.

A Espanha pode estar melhor. A Argentina é a detentora do troféu. Mas se o Didier (Deschamps) conseguir trazer organização tática à equipa, a França voltará a ser uma das melhores. Pode haver a surpresa de Portugal. Acredito que Portugal será a surpresa do torneio. Se olharmos bem, o tipo de jogadores que têm é simplesmente extraordinário, de outro nível.

Acredito mesmo que a individualidade que temos é fantástica. E não existe um problema com o (Kylian) Mbappé. Todos aceitam que ele é o líder da seleção francesa, mesmo tendo (Ousmane) Dembélé, que é vencedor da Bola de Ouro. Portanto, depende. A França tem de jogar com o Senegal, campeão africano. Nunca podemos considerar que Marrocos foi o vencedor. A forma como se começa o primeiro jogo vai definir o resto do torneio, provavelmente porque não é um grupo fácil. Têm o (Erling) Haaland, que está com a Noruega. Se começarem mal, têm sorte em defrontar o Iraque no segundo jogo.

Mas nunca se sabe, podem estar sob pressão para o segundo jogo. Mas, felizmente, agora este Mundial tem 48 equipas. Portanto, também há a possibilidade de o melhor terceiro classificado passar facilmente. Por isso, não há receio. Existe a possibilidade de a França vencer, mas, pelo menos, chegar às meias-finais.

- Fala-se muito sobre a possibilidade de Zinedine Zidane ser o selecionador da França após o Mundial. Vê a sua chegada como uma continuação do trabalho de Deschamps ou tentará algo diferente?

Acho que o Zidane fez um trabalho muito, muito bom no Real Madrid. Mas não teve uma verdadeira oportunidade de expressar a sua filosofia. Penso que aproveitou o que o (Rafa) Benitez tinha deixado com os jogadores que recrutou para a equipa. Felizmente, trouxe a sua própria visão do jogo e resultou de forma incrível.

Na seleção, acredito que vai esforçar-se muito para apagar a filosofia que o Didier implementou e impor a sua própria filosofia. Tenho a certeza de que quatro ou cinco jogadores que são primeiras escolhas para o Didier vão sair da equipa para dar lugar a uma filosofia diferente. Ainda não foi oficialmente anunciado que será ele, mas parece haver uma grande possibilidade.

Especialmente pelo facto de o Zidane nunca ter querido treinar nenhum clube. O Chelsea ofereceu-lhe cheques em branco para treinar a equipa. O Manchester United fez o mesmo quando estava com problemas. Equipas turcas também. Portanto, significa que há uma verdadeira compreensão do estilo de vida por parte do Zidane. Ele precisa do seu espaço. E a seleção vai dar-lhe o poder de regressar ao sistema. E, ao mesmo tempo, permitir-lhe continuar a ter uma qualidade de vida decente.

- Para além das considerações pessoais, que futuro imagina para o seu amigo Deschamps? Gostaria de o ver novamente à frente de um clube ou de uma seleção, ou talvez noutro papel?

Acho que vai optar por outra seleção. Não vejo o Didier a ir para um clube no dia a dia. Temos a mesma idade. Eu nasci em setembro, ele em outubro. Não o vejo a assumir um clube. Vai certamente assumir uma seleção.

- Foi capitão da seleção francesa durante o desastre de 2002. Aquela derrota no jogo de abertura frente ao Senegal foi uma grande surpresa e marcou o resto do torneio. Acha que esse jogo ainda estará na mente dos jogadores antes do confronto no Mundial, ou já pertence ao passado?

Muitos dos rapazes que estão atualmente na equipa nem sequer tinham nascido. Portanto, só os media e as pessoas à volta podem lembrar-se disso, mas penso que eles são mais fortes do que isso, sinceramente. Vão lidar com a situação corretamente, mais do que pensar que é uma maldição e que vão ter o mesmo resultado que a seleção francesa em 2002. Houve outros fatores. Disputámos o jogo de abertura. Éramos os campeões em título do Mundial e tínhamos vencido o Euro. Portanto, estávamos sob pressão. A maioria de nós tinha 32 ou 31 anos. Não se pode comparar.

O jogo é o mesmo, mas é uma geração diferente. Os senegaleses, certamente, vão aproveitar toda a felicidade dessa vitória que tiveram na altura. Mas, do ponto de vista francês, é uma abordagem diferente. Mesmo que o Senegal seja campeão africano, continuo a acreditar que não afeta a mentalidade destes jogadores. É curioso, porque, em 2002, quando fomos jogar contra o Senegal, tínhamos os três melhores avançados. (David) Trezeguet era o melhor marcador em Itália, Thierry Henry o melhor marcador em Inglaterra e Djibril Cissé o melhor marcador em França. Mas é o que é.

- Já falou anteriormente sobre a qualidade das seleções africanas antes deste Mundial. Como vê o desempenho da Costa do Marfim e do Senegal? Naturalmente, também deve estar a pensar no Gana, que contratou Carlos Queiroz mesmo antes do torneio. O que pensa sobre isso?

Gostava do treinador anterior (Otto Addo). Teve azar por não terem conseguido bons resultados nos particulares. Mas acredito que o Queiroz vai trazer o seu toque pessoal à equipa. Falo do sistema. No Gana e em muitos outros países, o sistema é que, por vezes, o treinador tem de se adaptar ao que a direção e a administração lhe dizem. Portanto, o Queiroz vai lidar com a sua própria sensibilidade. Ele percebe de futebol, tem verdadeira experiência no futebol europeu ao longo dos anos. Vai conseguir controlar um pouco os egos.

Em África, temos um problema com os egos. Os jogadores mais velhos que estão na equipa, que já não rendem, mas continuam lá, e não se consegue tirá-los. Há jogadores muito bons que são titulares na Premier League e noutras ligas. Por isso, espero que o Gana esteja com Marrocos, Senegal e Costa do Marfim como as surpresas deste Mundial. Temos 10 seleções africanas no Mundial. O Gana pode ser uma das surpresas se começar muito bem, com confiança e uma boa filosofia do Queiroz, e eliminar tudo aquilo que referi antes: os egos e os problemas dos jogadores mais velhos, aqueles que, por vezes, atrasam o desenvolvimento dos outros.

- Antoine Semenyo fez uma época fantástica em Inglaterra e parece pronto para assumir o papel de líder do Gana. O que espera dele no Mundial?

É aquele jogador individual que, quando a equipa enfrenta dificuldades, com um movimento, uma corrida, pode permitir ao Gana manter-se no jogo. É isso que esperamos dele. Que seja disciplinado e não se aproveite do facto de ser jogador do Manchester City, de ser uma estrela, de chegar ao Gana e de ser mais forte do que a entidade e a equipa. Precisa mesmo de entrar com humildade e ser esse jogador de topo que pode fazer a diferença. A questão é que tem de manter a disciplina, mesmo sendo jogador do Manchester City e uma das estrelas. Precisamos que seja um dos jogadores-chave que, quando a equipa estiver numa situação difícil, possa elevar um pouco o nível.

Não se qualificaram para a Taça das Nações Africanas, por isso a expectativa no Gana é muito elevada e, também para os jogadores, há muita vontade de participar numa competição internacional.

- Em 2007, disse que queria um dia assumir a seleção do Gana. Isso nunca aconteceu e acabou por nunca treinar. Tem algum arrependimento?

Não, sinto que sou muito útil ao desporto e ao futebol através do que faço fora do campo. Sim, podia treinar uma equipa, 25 jogadores, o meu nome nos jornais, mas acredito no que faço hoje na minha vida. Estive quase a assumir a seleção do Gana, mas algumas escolhas de vida impediram-me de aceitar o cargo. Na minha terra, não queria que no fim, acabasse despedido. Começa-se bem, mas no fim há sempre uma quebra. Por isso, não quis enfrentar esse problema durante a minha vida.

Sou útil ao futebol ao dar o meu conhecimento. Sou detentor da Licença Pro da UEFA. Trabalho na televisão, o que me permite partilhar o meu conhecimento com os adeptos, a minha fundação, a minha academia, a promoção que faço pelo mundo, para aumentar o interesse pelo futebol. O pequeno empreendedor que sou no Gana, onde dirijo muitas pessoas nos meus negócios.