Diário do Mundial: Onde foi parar o Padrão FIFA no Mundial da América do Norte?

Diário do Mundial: Onde foi parar o Padrão FIFA no Mundial da América do Norte?

Saltemos para 2026. No primeiro Mundial de sempre disputado em três países, com o foco maior nos Estados Unidos, o Padrão FIFA foi ofuscado por diversos outros elementos. Pode dizer-se que foi absorvido pela realidade da maior potência mundial.

O torneio que sempre impunha as suas próprias regras percebeu que, nos Estados Unidos, quem manda são o presidente, os governadores, os autarcas e o pragmatismo económico local. Em vez de uniformizar este Mundial, a FIFA teve de o adaptar ao padrão norte-americano.

O federalismo da bola: cada cidade, uma regra

A experiência de ir ao estádio neste Mundial tornou-se um exercício de geografia política. O modelo é semelhante à própria estrutura dos EUA: existe um poder central, mas cada estado tem a sua autonomia e as suas próprias orientações.

Tente ver um jogo em Nova Jérsia e depois em Filadélfia, e vai achar que está em dois torneios diferentes. Para sair de Nova Iorque e chegar ao MetLife Stadium, o fã enfrenta uma logística limitada e preços de comboio exagerados, que facilmente atingem 98 ou 100 dólares por pessoa.

A poucos quilómetros dali, em Filadélfia, a atmosfera é diferente. Por ser uma cidade mais pequena e que não vive do turismo predatório, a comunidade local parece ter acolhido melhor o torneio, esforçando-se até para receber os visitantes de todo o mundo com simpatia e vantagens.

O metro não sofreu alterações significativas: paga-se US$ 2,90 para ir ao estádio e a volta é gratuita. O governo local esforçou-se por criar uma verdadeira experiência de futebol e chegou mesmo a autorizar o famoso tailgating, aquele churrasco de convívio nos arredores do estádio, uma tradição do futebol americano.

Para o adepto desportivo, o perímetro FIFA sempre foi uma zona estéril. Mas nos EUA, o estacionamento é o centro do jogo. Cidades como Filadélfia (Lincoln Financial Field), Dallas (AT&T Stadium), Houston (NRG Stadium) e Kansas City (Arrowhead Stadium) mantiveram a sua posição e asseguraram o tailgating.

Embora o preço para estacionar em Filadélfia seja extorsivo, variando entre 150 e surpreendentes 600 dólares conforme o tamanho do veículo, a permissão para abrir a bagageira, ligar o grelhador, beber uma cerveja e confraternizar antes de a bola começar a rolar devolveu ao fã a espontaneidade que a FIFA tentou sufocar durante duas décadas. É a cultura da NFL a absorver a burocracia de Zurique.

Por outro lado, em estádios como o de Miami (Hard Rock Stadium) e o próprio MetLife, as restrições de segurança e os perímetros reduzidos ou privatizados sufocaram essa cultura, originando uma experiência estéril.

Até as regras de comportamento são diferentes. Há arenas onde a fiscalização é implacável. Noutras, impera o "fingir que não se vê".

"Torneio de verão" com marca?

A FIFA, que antes atraía multidões de jovens dispostos a trabalhar gratuitamente em troca de um uniforme e uma credencial, parece ter falhado na mobilização. O número de voluntários neste Mundial é claramente menor e com menos formação do que em edições anteriores.

Parte do atendimento foi subcontratado e tem sido realizado por funcionários das próprias arenas. Foi o que se observou na área de guest services durante o jogo do Brasil, onde, a cada instante, os orientadores tentavam controlar o público, impedindo os fãs de estarem de pé ou de se amontoarem nos corredores.

Perante arenas enormes, seleções dispersas por distâncias continentais e uma total falta de identidade visual urbana unificada, a sensação que permanece é incómoda: por vezes, este Mundial parece apenas um gigantesco "torneio de verão" de pré-temporada europeia a decorrer nos Estados Unidos.

A disputa política nos bastidores foi intensa. Autarcas e governadores americanos não aceitaram as regras de Zurique de braços cruzados; exigiram compensações financeiras, negociaram segurança, transportes públicos e ditaram como os seus estádios seriam usados.

O Padrão FIFA, afinal, tornou-se um mito. A entidade máxima do futebol acreditava que iria colonizar a América com a bola nos pés, mas acabou por perceber que, nos Estados Unidos, o futebol é apenas mais um negócio na engrenagem do show business.

Quem define as regras do espetáculo são os donos da casa, mesmo que a entidade ganhe algumas batalhas pontuais, como a exigência de ocultar os naming rights dos estádios do Mundial, decisão que se tornou até meme e estratégia de marketing por parte de marcas como a Levi's.