André Villas-Boas sobre Varandas: 'Não confio nele e não gostamos um do outro'
A segunda visita em dois dias. Ontem estive no Festival da ECO, também com muito prazer. Visitei os deputados da Assembleia da República e afirmei que ser portista em Lisboa é quase um desporto de alta competição. Assim, quando um portista chega aqui, é recebido de braços abertos, porque a alma portista em Lisboa é também de resistência e combate. É verdade que os clubes de Lisboa têm um enorme poder demográfico e apoio aqui. Mas os nortenhos, os adeptos do FC Porto, também fazem a sua força.
Ser campeão é um enorme prazer. Há naturalmente vontade de abordar o percurso percorrido, a transformação do FC Porto desde que assumi a presidência, de um ano para o outro. Verificaram-se mudanças profundas, a nível estrutural, na direção desportiva, no treinador, nos jogadores, muitas alterações que nos conduziram ao êxito. É essa evolução desportiva do FC Porto, de uma temporada para a seguinte, que me dá tanto gosto discutir. O ano anterior foi difícil, mas passámos para um ano de sucesso retumbante, em pouco tempo, o que é excelente para nós.
Penso que o que se passa no futebol europeu, e mundial, mas especialmente europeu, com as mudanças cada vez mais bruscas de lideranças nos treinadores, clubes onde se deposita confiança para projetos de longo prazo acabam por durar apenas seis meses, como aconteceu com Xabi Alonso no Real Madrid e Liam Rosenior no Chelsea. Assim, os projetos são cada vez mais instáveis e o Farioli acredito que se sentiu em casa, ligado a um projeto e a uma visão. Nós também fizemos as nossas alterações de um ano para o outro, não posso negá-lo, fomos forçados a mudar de treinador. Infelizmente, já senti na pele o que é essa necessidade de mudança, e mudam-se os líderes, a forma de comunicar, os métodos. Umas vezes resulta, outras não. O que o Farioli encontrou no FC Porto foi estabilidade, comunicação franca e direta, uma estrutura que o apoia diariamente, a direção desportiva, o presidente, todas as pessoas que trabalham nos bastidores para manter a máquina FC Porto a funcionar. Acho que essa estabilidade é muito difícil de encontrar.
Houve conversas sobre uma possível abordagem do Barcelona, algo que o Deco me negou. As nossas conversas têm girado em torno disso e de alguns jogadores do Barcelona, da La Masia, que possam interessar ao FC Porto. No caso do Cardoso Varela, foram-lhe prometidos sonhos falsos. Acabou por se transferir para um clube amador na Croácia, ao abrigo de uma lei de exceção. O pai do Cardoso Varela foi colocado na Croácia, numa gráfica, tudo muito dúbio e estranho. Entretanto, o jovem está relegado ao Dínamo Zagreb e procura um futuro. Infelizmente, esse futuro não é no FC Porto. Ele não tem toda a culpa no processo, mas foram-lhe vendidos sonhos.
Não posso negar que o Frederico Varandas me dá muito trabalho. Temos uma animosidade mútua, não gostamos um do outro. Eu não confio nele, e ele não confia em mim. O Rui Costa é um senhor do futebol, um dos maiores talentos portugueses de sempre. É uma pessoa digna, humana, que lidera o Benfica, o nosso maior rival, histórico do FC Porto. Com orgulho, somos o clube com mais títulos nacionais. Com o Rui tenho uma relação próxima, direta, embora também não tenha sido agradável para ele. Não fui agradável quando disse que ele estava no bolso do Frederico Varandas. Parece cada vez mais evidente um alinhamento entre Benfica e Sporting, com o objetivo de prejudicar o FC Porto. Com o Frederico temos uma animosidade pessoal, porque ele ataca-me no plano pessoal e familiar, o que não posso tolerar. No plano profissional, partilhamos alguma visão, especialmente na centralização, que está ameaçada pelo Nacional e Marítimo com uma ideia que pode implodir o futebol português.
Bem, estávamos numa situação difícil em termos de resultados. O FC Porto chegou a ter a possibilidade de ser primeiro ao fim de mil dias, quando fomos jogar à Madeira, num jogo que acabou mais cedo devido ao nevoeiro. Depois houve a meia final da Taça da Liga com o Sporting, uma derrota em Barcelos, outra no Nacional, e decidimos que era altura de mudar. Optámos por um treinador que achávamos que nos levaria ao topo, com uma visão diferente e estruturante, um sistema de 3-4-3 ou 3-5-2 dinâmico, que nos entusiasmou a explorar, considerando as limitações do plantel. Mas ambas as escolhas correram mal. Os resultados mostraram que não resultaram, e o Campeonato do Mundo também terminou muito mal, por isso mudámos novamente. Assim, investimos o dinheiro gerado em janeiro, quase todo na equipa, para reformular o talento ao dispor do treinador.
Não temos quaisquer indicações. Abordagens, não. Ainda ontem recusei mais uma abordagem do Barcelona. É natural que muitas pessoas se baseiem nas notícias, especialmente os meios de comunicação mais mediáticos sobre os movimentos de mercado, e esses movimentos atraem sempre público e adeptos, que gostam de ver as movimentações. Tudo isto gera expectativa, ansiedade, excitação, e é natural que o mercado oscile muito. A realidade é que dos nossos jogadores mais consagrados na equipa este ano, tivemos muito poucas abordagens. Isso é um bom sinal, de proteção dos nossos ativos e talento. Queremos manter a base da equipa para o próximo ano e construir a partir dela. Temos algumas alterações a fazer, poucas, e temos consciência de que os clubes portugueses dependem muito desses movimentos de mercado.
O Rodrigo encontrou-se numa posição diferente. Na era Anselmi era um avançado com liberdade, o que potenciou a sua criatividade. Com o sistema de Farioli, joga como médio ofensivo (posição 8 ou 10), o que exige maior intensidade defensiva e provavelmente não consegue mostrar toda a sua criatividade, mas contribui mais para a equipa e para a ambição do treinador. Em termos de golos, não foi como na temporada anterior, mas o talento está lá. É um dos grandes talentos, dos melhores do mundo.
Na construção do plantel, seguimos as decisões do treinador e neste momento contamos com ele. Há sempre jogadores que sonham com outros voos, mas atualmente está nos nossos planos mantê-lo. No ano passado foi abordado pelo Ittihad, mas o Porto não chegou a acordo. Deve continuar no FC Porto, para nosso deleite.
É um guarda-redes muito procurado, que pode receber convites e tem ambição de jogar noutros campeonatos. Contudo, é um jogador muito bem valorizado, capitão do FC Porto a quem pedi que usasse a camisola número 2. A camisola 2 tem muito peso, memória, carga... por isso gostava que estivesse em campo no próximo ano.
Vamos ao mercado por um ponta de lança
Gostaria. Costumo chateá-lo e ele diz 'caro presidente, ainda não é altura'. Gostava muito de o ter de volta. Os bons filhos regressam a casa e espero que um dia seja assim, com Vitinha e Ruben Neves.
João Afonso? É uma aposta, sem dúvida. Um guarda-redes em que depositamos grandes esperanças de conquistar o seu espaço. Na análise técnica, consideramos que tem grandes condições para ser um grande guarda-redes e futuro da seleção. Principalmente na Liga Revelação, mas também nas camadas jovens. É o terceiro açoriano no FC Porto e pode ser o segundo a estrear se, porque o Pauleta não se estreou. Temos grandes esperanças.
Vamos ao mercado para contratar um ponta de lança. A previsão de regresso do Samu é em outubro. A meados de novembro estará a 100% e o FC Porto precisa de se reforçar. Os alvos estão identificados. Jovens ou com experiência, um pouco de tudo. Temos uma lista dos melhores talentos por posição, depois por escalões e por contrato, com quem podemos negociar de forma mais aberta. Maio é uma altura má para negociar, os clubes pedem muito dinheiro. O grande mercado movimenta-se em agosto. Tentamos identificar, encurtar distâncias e depois aproximamo-nos na altura certa.