Carlo Ancelotti estreia no Mundial com o desafio de demonstrar que o seu sucesso nos clubes pode replicar-se nas seleções

Carlo Ancelotti estreia no Mundial com o desafio de demonstrar que o seu sucesso nos clubes pode replicar-se nas seleções

Com um currículo praticamente imaculado, sendo o único treinador campeão nacional nas cinco principais ligas europeias e o maior vencedor de sempre da Liga dos Campeões, o italiano carrega uma enorme responsabilidade: um historial estatístico que aconselha prudência. Será que o êxito avassalador no futebol de clubes garantirá ao italiano uma transição vitoriosa para o futebol de seleções?

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"É uma experiência nova, mas algo especial, obviamente. É ter a responsabilidade e a honra de representar o país do futebol, a seleção mais laureada do mundo. Duas coisas: responsabilidade e honra. Quero aproveitar este momento com alegria e felicidade, porque é um momento muito bonito da minha história", afirmou Ancelotti, logo na primeira resposta da conferência de imprensa de véspera da estreia no Mundial, realizada em Nova Jersey nesta sexta-feira (12).

Treinar um clube e comandar uma seleção são profissões quase distintas. No dia a dia dos clubes, o treinador beneficia do tempo, da repetição tática diária e do poder de mercado para contratar as peças que faltam ao seu esquema. Nas seleções, o cenário é radicalmente diferente.

O comandante transforma-se num selecionador, dispondo de poucos dias de treino ao longo do ano, tendo de lidar com a escassez de opções em certas posições e gerindo a pressão cultural de uma nação inteira. Um receio calculado que Ancelotti sempre expressou, mesmo na sua vitoriosa trajetória no futebol de clubes.

"O medo é um componente importante da vida, porque se não tivermos medo e encontrarmos um leão, ele parecerá um gato. O medo é uma parte fundamental, salva vidas. São momentos em que temos preocupações para que a nossa equipa possa fazer o melhor jogo possível. Por natureza, sou muito otimista, acho que a equipa está bem preparada para o jogo de amanhã (neste sábado, contra Marrocos) e bem preparada para o Mundial", garantiu o italiano.

Esta dinâmica de trabalho explica porque "supertreinadores" do futebol moderno, obcecados por processos diários e engrenagens milimétricas, como Pep Guardiola e Jürgen Klopp, ainda evitam ciclos por seleções. Até o lendário Alex Ferguson só teve uma breve e discreta experiência interina com a Escócia no Mundial de 1986. Para treinadores que dependem de 300 dias de treino por ano para automatizar movimentos, o curto período de um Campeonato do Mundo pode ser frustrante.

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Os reis dos dois mundos: a lição dos pioneiros

Olhando para a história do futebol, a lista de treinadores que decifraram este enigma e alcançaram sucesso, mesmo que isso não signifique glórias em Mundiais, em ambas as vertentes é restrita, mas oferece os espelhos perfeitos para a missão de Ancelotti:

Vicente del Bosque é o maior paralelo para o italiano. Del Bosque construiu um Real Madrid vencedor no início dos anos 2000, conquistando duas Ligas dos Campeões. Ao assumir a Espanha, conseguiu o feito raríssimo de manter o nível elevado, levando o país ao inédito título do Mundial de 2010 e ao bicampeonato europeu em 2012. A gestão humana do balneário e o controlo de egos fizeram parte da receita de Del Bosque.

Outro exemplo é Marcello Lippi, uma lenda incontestável. Lippi dominou o futebol europeu na década de 1990 ao comando da Juventus, onde venceu a Champions de 1996. Em 2006, levou toda a sua mentalidade competitiva para a Seleção Italiana, blindando o plantel em meio a crises políticas internas e conquistando o quarto título mundial na Alemanha.

Luiz Felipe Scolari e Telê Santana (Brasil): No cenário nacional, Felipão alcançou a glória eterna com o Penta em 2002 e o vice-campeonato europeu com Portugal em 2004, depois de ter conquistado a América com o Grémio e o Palmeiras. Já Telê Santana, o mestre do futebol arte, marcou época na Seleção com equipas lendárias em 1982 e 1986, para depois acumular títulos mundiais e continentais com o São Paulo na década de 1990.

Carlos Bilardo e Juan Carlos Lorenzo (Argentina): Bilardo foi bicampeão da Libertadores com o Estudiantes (como jogador, mas levando essa escola para a vida) e montou o esquema perfeito para consagrar a Argentina de Maradona no Mundial de 1986. Nos anos 70, Juan Carlos Lorenzo dominou a América com o Boca Juniors bicampeão da Libertadores, após já ter comandado a seleção argentina em dois Mundiais (1962 e 1966).

O peso da tradição: rompendo a barreira do pragmatismo

A história antiga também guarda os nomes de Rinus Michels (pai do Futebol Total, campeão europeu com o Ajax e do Euro 88 com a Holanda), Franz Beckenbauer e Helmut Schön, que souberam transportar a mentalidade vencedora dos gigantes alemães (como o Bayern de Munique) diretamente para o banco da seleção da Alemanha Ocidental, culminando no título mundial de 1974.

Historicamente, os treinadores de clubes que triunfaram em seleções não eram cientistas táticos rígidos, mas sim grandes gestores de homens. Eles entendiam que, num torneio de um mês, a psicologia, a liderança e a capacidade de acalmar ambientes inflamados valem mais do que quadros táticos complexos. Ancelotti parece já estar alinhado a este discurso.

"O trabalho de um treinador é um trabalho de adaptação, temos de nos adaptar a muitas coisas: às características dos jogadores, ao ambiente, à cultura da Seleção, à cultura do país. Tentei adaptar-me rapidamente, acho que o trabalho feito neste ano nos permite ser competitivos neste Mundial", disse o mister aos jornalistas que se amontoaram na sala de imprensa do MetLife.

Se Ancelotti tentar transformar o Brasil numa cópia rígida de um clube europeu, a tendência estatística aponta para o esgotamento. No entanto, se ele ativar a sua maior qualidade, a flexibilidade humana para potenciar talentos, o italiano tem o cenário perfeito para provar que a sua mentalidade vencedora não conhece fronteiras, abrindo portas para que gigantes do futebol de clubes tenham a confiança necessária para transpor barreiras e assumir seleções nacionais. Seria Guardiola o próximo desta lista?

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