Quando os guarda-redes se transformam em avançados

Quando os guarda-redes se transformam em avançados

No oitavo minuto dos descontos, o Benfica dispunha da sua derradeira oportunidade. Um livre pela direita, e o treinador português José Mourinho ordenou que todos avançassem, incluindo o guarda-redes, numa jogada arriscada para facturar o golo que colocaria a equipa de Lisboa nos playoffs da Liga dos Campeões. O improvável verifica-se.

O guarda-redes ucraniano Anatoliy Trubin salta mais alto que todos e, de cabeça, vence o guarda-redes belga Thibaut Courtois, assegurando o triunfo do Benfica por 4 a 2 sobre o Real Madrid no Estádio da Luz, em Lisboa.

Este não era um golo banal. Graças a ele, as Águias garantiram os playoffs que dão acesso às oitavas de final da Liga dos Campeões, pelo critério de golos sofridos e marcados, a mesma eliminatória que o Real Madrid agora terá de enfrentar após esta derrota em solo português.

Trubin, o herói menos esperado, não foi o primeiro guarda-redes a marcar de cabeça, nem de grande penalidade ou de livre, mas o seu golo nesta quarta-feira contra o colosso madrileno pode ser visto como um dos mais decisivos da prova, considerando a relevância do encontro.

"Era inconcebível que ele entrasse na área e cabeceasse assim. Merecíamos uma vitória destas, depois de um mês complicado", celebrou o defesa argentino do Benfica, Nicolás Otamendi, à ESPN.

Do mítico brasileiro Rogério Ceni, ícone do São Paulo, autor de 132 golos em jogos oficiais e amigáveis e o maior goleador entre os guarda-redes na história do futebol, ao paraguaio José Luis Chilavert, que facturou golos inesquecíveis pelo Vélez Sarsfield e pela seleção paraguaia nos anos 1990, vários profissionais nesta posição já agitaram as redes.

Aqui vão alguns golos memoráveis apontados por guarda-redes:

Palop, o salvador do Sevilha

O guarda-redes espanhol Andrés Palop entrou para a história do Sevilha ao marcar um golo vital na campanha que levou o clube ao segundo título da Liga Europa em 2007.

A formação andaluza perdia ante o Shakhtar Donetsk no jogo da segunda mão dos oitavos de final, na Ucrânia, a 15 de março desse ano, e estava perto da eliminação na sua competição favorita, o Sevilha tem sete troféus no total, até que, aos 94 minutos, Palop cabeceou para o fundo das redes num canto marcado por Dani Alves, igualando o marcador.

O golo de Palop levou o jogo para o prolongamento, onde o uruguaio Javier Chevantón selou a vitória para o Sevilha, que depois afastou o Tottenham nas quartos de final, o Osasuna nas meias finais e o Espanyol na final.

"Quando o canto foi marcado, todos contavam comigo, e depois vi a bola a vir na minha direção e percebi que era a oportunidade, que podia rematar para a baliza sem marcação adversária", recordou Palop. "Senti emoções únicas que nunca tinha experimentado. Agora compreendo o que um colega sente ao marcar um golo."

Chilavert, o goleador paraguaio

José Luis Félix Chilavert ganhou fama por golos de livre e de grande penalidade nos anos 1990, ao serviço do Vélez Sarsfield e da seleção paraguaia.

Entre as suas presas habituais contavam-se Germán "Mono" Burgos, do River Plate e da Argentina, Oscar Córdoba, da Colômbia, e Carlos Navarro Montoya, do Boca Juniors.

Uma das suas noites mais inesquecíveis foi a 16 de junho de 1996, no Estádio José Amalfitani, em Buenos Aires.

O Vélez defrontava o Boca Juniors, que alinhava Navarro Montoya, Claudio Caniggia e o lendário Diego Armando Maradona.

Após sofrer um golo inicial de Caniggia, o Vélez virou para um 5 a 1, com dois golos de Chilavert: o segundo da sua equipa, um livre sublime no ângulo superior esquerdo, e o terceiro, de penálti.

Maradona foi expulso pelo árbitro Javier Castrilli, e o Vélez brilhou, conquistando o segundo título nacional consecutivo.

Higuita, golo em meia final da Libertadores

Poucos dominam as excentricidades como René Higuita.

Entre as suas jogadas icónicas, o excêntrico guarda-redes colombiano recorda um golo fantástico de livre na meia final da Copa Libertadores de 1995, ao serviço do Atlético Nacional de Medellín.

Com precisão cirúrgica, 'El Loco' enviou a bola para o ângulo superior da baliza guardada por outro jogador de cabelos longos, 'El Mono' Burgos, no Estádio Monumental de Buenos Aires.

O Atlético Nacional ganhou o primeiro jogo por 1 a 0 com esse golo e perdeu pela mesma margem na receção em casa, mas avançou para a final nos penáltis, onde caiu ante o Grêmio.

Tim Howard, de baliza a baliza

Embora os golos de cabeça por parte de um guarda-redes sejam raros no futebol, marcar de uma área à outra é ainda mais invulgar, apesar de já ter sucedido em certos casos.

Um exemplo deu-se a 4 de janeiro de 2012, quando o guarda-redes da seleção dos Estados Unidos, Tim Howard, facturou um golo histórico na Premier League pelo Everton contra o Bolton Wanderers no Goodison Park, em Liverpool.

Aproveitando um vento intenso, o seu remate desde a sua própria área passou por cima do guarda-redes contrário, Adam Bogdan, aos 62 minutos, tornando-se no quarto guarda-redes a marcar na história da Premier League.

Ainda assim, o Bolton venceu o jogo por 2 a 1.