Participação iraniana na Copa de 2026 permanece incerta
O Irã planeja boicotar a Copa do Mundo de 2026? O conflito iniciado pelos Estados Unidos e Israel levanta sérias dúvidas sobre a presença da equipa asiática no evento, cujos três jogos da fase inicial estão agendados para ocorrer em território norte-americano.
Qual a postura do Irã?
A hipótese de um boicote por parte do Irã ao Mundial surgiu logo após o arranque da operação militar conjunta de Israel e Estados Unidos. O presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, mencionou essa opção, sublinhando que a decisão final competiria às "autoridades desportivas".
"Estes eventos não passarão em branco... No entanto, o que se sabe por agora é que, face a este ataque e esta brutalidade, a Copa do Mundo não pode ser vista com otimismo", afirmou o responsável na televisão iraniana no sábado, adiantando que todos os jogos do campeonato nacional foram cancelados.
A 'Team Melli', o nome da seleção iraniana, qualificou-se para o seu sétimo Mundial e integra o Grupo G (ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia), com um encontro previsto para Seattle e dois para Los Angeles, cidade que acolhe uma numerosa comunidade iraniana exilada desde a Revolução Islâmica, muitos dos quais apoiam a causa da monarquia Pahlavi, derrubada em 1979.
Qual a posição da Fifa?
A Fifa adota uma postura prudente face à eventual desistência do Irã na Copa do Mundo.
"Realizámos uma reunião, mas ainda é prematuro entrar em pormenores. Vamos continuar a monitorizar atentamente a situação em todas as frentes, em todo o mundo", declarou o secretário-geral da organização, Mattias Grafstrom.
De acordo com uma fonte próxima, ainda não houve diálogos com a Federação Iraniana de Futebol relativamente a uma possível renúncia.
A escassos 100 dias do jogo inaugural da prova, o cenário no Irã cria, em qualquer caso, um grande desconforto para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que mantém laços próximos com o presidente dos EUA, Donald Trump.
Isto torna-se ainda mais claro ao considerar que o conflito também impacta outros países apurados para a Copa do Mundo, como a Arábia Saudita, o Catar e a Jordânia, que enfrentam bombardeamentos aéreos iranianos.
O que estabelece o regulamento?
O boicote por parte de uma das seleções participantes na sua principal competição não está contemplado no regulamento da Fifa.
Segundo uma fonte ligada à entidade, "terá de ser tomada uma decisão específica quanto a um playoff" para outra equipa caso a ausência do Irã se confirme.
O Artigo 6º do regulamento da Copa do Mundo de 2026 refere o conceito de "força maior" e atribui aos organizadores "plena discrição" para adotar "as medidas adequadas".
Em caso de desistência ou exclusão de um país, a Fifa dispõe de total autonomia para responder e "pode optar por substituir a associação membro em causa por outra associação".
A falta do Irã poderia, logicamente, favorecer uma seleção da zona asiática, que já tem oito equipas apuradas para este primeiro Mundial com 48 seleções.
Um nono representante asiático poderia qualificar-se se o Iraque vencer a final do playoff intercontinental a 31 de março, em Monterrey, no México.
Os iraquianos juntar-se-iam então à França no mesmo grupo que Noruega e Senegal.
Existiu algum caso semelhante?
Embora os Jogos Olímpicos tenham lidado com boicotes na sua história — os mais marcantes durante a Guerra Fria em 1980 em Moscovo e em 1984 em Los Angeles — a Copa do Mundo nunca enfrentou uma situação idêntica, apesar de algumas ameaças.
O caso mais relevante ocorreu em 1978, quando certos jogadores ponderaram protestar contra a ditadura militar na Argentina, mas o boicote não se materializou.
Turquia, Escócia e Índia viram-se obrigadas a abandonar a Copa do Mundo de 1950 no Brasil, mas os motivos foram de natureza financeira, e esses três países não foram substituídos.
Existem também exemplos de exclusões que afetam nações em guerra: em 1992, a Jugoslávia foi afastada da Eurocopa pela Uefa devido ao conflito nos Balcãs e substituída pela Dinamarca duas semanas antes do arranque do torneio. Mais tarde, os dinamarqueses venceriam a prova com um triunfo (2-0) sobre a Alemanha na final.
A Rússia e os seus clubes, por seu turno, foram suspensos de todas as competições internacionais pela Fifa e pela Uefa após a invasão da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.