Mundial-2026: Direito de cidadania por nascimento nos EUA impulsiona conjunto de Pochettino
Historicamente, qualquer pessoa nascida em solo norte-americano tem automaticamente direito à cidadania. Trump pretende pôr fim a isso como parte de restrições mais amplas à imigração.
Enquanto os juízes do Supremo Tribunal preparam a sua decisão, os americanos tiveram uma ilustração clara desta política em ação através do avançado norte-americano Folarin Balogun, que marcou dois golos na vitória por 4-1 sobre o Paraguai.
Balogun pode ter brilhado com a camisola dos EUA, mas se não fosse por um acaso do destino, nem sequer seria americano.
"(A minha mãe) veio aos EUA visitar a irmã, e tinha o bilhete de regresso, mas depois disseram-lhe que estava demasiado grávida. Por isso, nasci em Nova Iorque", contou Balogun num vídeo publicado no Instagram pela equipa dos EUA esta semana.
Apesar de Balogun ter crescido em Londres desde o primeiro mês de vida, qualificou-se para a cidadania por nascimento.
Ainda tão britânico que prefere chá inglês a café, Balogun acabou por escolher jogar pelos Estados Unidos em vez da Inglaterra ou da terra natal da sua família, a Nigéria.
"A forma como fiquei elegível para representar a América... Não vou ser eu a travar esta história", afirmou, com o seu distinto sotaque londrino.
Os três coanfitriões do Mundial - os Estados Unidos, o México e o Canadá - estão entre os poucos países do mundo, sobretudo nas Américas, que concedem cidadania automática a quem nasce no seu território.
Trump quer restringir a cidadania dos bebés nascidos nos EUA apenas àqueles que tenham pelo menos um dos pais cidadão americano ou residente legal - nada disto se aplicava a Balogun.
Especialistas ouvidos pela AFP afirmaram que a história de cidadania de Balogun é uma exceção no mundo do futebol, mas que é, ainda assim, um exemplo de como a migração está cada vez mais entrelaçada com o desporto.
Quase um quarto dos jogadores neste Mundial nasceu em países diferentes daquele que representa, afirmou Marissa Kiss, do Instituto de Investigação sobre Imigração da Universidade George Mason.
"Tal como acontece na World Baseball Classic, nos Jogos Olímpicos e no Mundial, os países competem por talento e a política de imigração é uma ferramenta competitiva", disse.
"Os países que facilitam a obtenção da cidadania têm vantagem no recrutamento de talento".
As comunidades da diáspora têm cada vez mais influência no alargamento do leque de jogadores, afirmou Gijsbert Oonk, professor na Universidade Erasmus de Roterdão, que estuda a interseção entre migração e desporto.
Este Mundial conta com 75 jogadores nascidos na Europa a representar equipas africanas, segundo dados compilados por Oonk.
"A França tornou-se o maior exportador mundial de talento futebolístico. Durante o Mundial-2026, perto de 100 jogadores participantes nasceram em França. No entanto, apenas uma minoria representa a seleção francesa", escreveu recentemente num blogue.
Jogadores nascidos em França e de ascendência africana representam países como Argélia, Marrocos, Senegal, Mali e Haiti - um reflexo da história colonial francesa.
"Os subúrbios à volta de Paris tornaram-se o equivalente futebolístico do Silicon Valley", disse, referindo-se às zonas residenciais onde vivem muitas famílias imigrantes.
Segundo a equipa dos EUA, metade dos seus 26 jogadores tem pelo menos dupla nacionalidade.
Entre eles está Tim Weah, filho da lenda do futebol George Weah, o único jogador africano a vencer a Bola de Ouro e que mais tarde se tornou presidente da Libéria.
O jovem Weah optou por jogar pelos americanos, mas podia ter representado a Libéria, a Jamaica e a França.
Entretanto, a pequena Curaçau tem apenas um jogador nascido na ilha caribenha, segundo David Storey, professor honorário de geografia humana na Universidade de Worcester.
Os outros 25 elementos da equipa nasceram nos Países Baixos, que consideram Curaçau como país constituinte.
"Apesar de terem uma população pequena (de 158.000), recorreram à sua diáspora para alargar o leque de jogadores", afirmou à AFP.
Este Mundial conta ainda com quatro pares de irmãos em que cada um representa uma equipa diferente.
Na próxima partida, na sexta-feira, os americanos vão defrontar a Austrália, cuja convocatória inclui três jogadores com origens de refugiados.
Junta-se a eles o capitão do Canadá, Alphonso Davies, que nasceu num campo de refugiados no Gana, filho de pais liberianos.