João Loureiro apela à união contra abutres imobiliários para preservar o estádio do Boavista

João Loureiro apela à união contra abutres imobiliários para preservar o estádio do Boavista
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Em mensagem enviada à agência Lusa, o ex-líder que quebrou o silêncio mantido durante oito anos após abandonar a presidência do emblema qualificou de estranho e surpreendente o anúncio de leilão público do Estádio do Bessa, em período de discussões com credores, e solicitou ao tribunal que considere o impacto social da coletividade.

"É do conhecimento público que existem várias contestações anunciadas, que como adepto do Boavista aplaudo, e que desejo ver bem-sucedidas no tribunal competente, o qual confio que será atento à vasta importância social do Boavista e aos milhares de atletas que utilizam o Estádio do Bessa e as suas múltiplas facetas, rejeitando a ambição excessiva que marca as posturas de abutres do setor imobiliário", afirmou, instando à coesão de todos para que o recinto não passe para posse de quem não pretenda gerir em harmonia com o Boavista.

João Loureiro expressou confiança de que a Câmara Municipal do Porto responderá adequadamente às exigências na proteção daquela que vê como a segunda maior entidade de interesse público da urbe, com perto de 123 anos de existência, recordando que o clube nunca recebeu compensação pela forte desigualdade em subsídios nacionais e locais durante a edificação do Estádio do Bessa para o Euro 2004.

Relativamente à direção atual, Loureiro admitiu que a mesa diretora do clube e a gestão da SAD, eleitas no ano transacto, têm se esforçado ao máximo, ainda que tenham assumido uma organização fragmentada e uma conjuntura próxima do desastre.

Advogando a superação de ruturas internas e a concentração de energias para lidar com o que qualifica como um instante crucial na trajetória do emblema, o antigo responsável ampliou o pedido de apoio à Federação Portuguesa de Futebol, à Liga Portugal e a outros emblemas do país, citando o caso do Bayern Munique que em 2003 cedeu dois milhões de euros ao adversário Borussia Dortmund para impedir sua insolvência.

O Estádio do Bessa e o seu conjunto desportivo serão arrematados na semana vindoura por preço inicial de cerca de 38 ME, em meio a grande turbulência no Boavista, que regista débitos acima de 150 ME.

Após este comunicado, a direção sob comando de Rui Garrido Pereira demonstrou espanto e assegurou empenho total em impedir a alienação, alinhando-se à torcida Panteras Negras que pretende lançar recurso judicial. Por sua vez, a SAD sob presidência de Fary Faye afirma monitorizar o processo.

Enquanto isso, o grupo Unidos pelo Boavista submeteu petição com 270 nomes solicitando assembleia geral urgente para remover a direção e designar comissão administrativa.

João Loureiro, que comandou o clube de 1997 a 2007 e de 2013 a 2018, descreveu como notavelmente adversa a progressão do emblema após sua partida, destacando a alienação do domínio da SAD como elemento que levou à delicada posição atual do conjunto portuense.

O ex-responsável menciona ter avisado na ocasião o presidente da Mesa da Assembleia Geral sobre os perigos da transação, todavia, infelizmente, sua voz não foi atendida.

"Parti com o Boavista dono de todo o seu acervo e de 55% da SAD. Infelizmente, a marcha dos acontecimentos no Boavista, após fase inicial, foi notavelmente adversa desde a minha saída, tendo surgido um evento que na minha visão acelerou tudo o subsequente: a cessão da maioria do capital da Boavista SAD a um investidor, deixando a entidade com meros 10% do capital, sem proteção adequada para o clube", censurou.

Para Loureiro, o negócio, cujos detalhes ainda permanecem obscuros, iniciou um agravamento contínuo da saúde financeira do emblema, com o endividamento total multiplicado de forma impressionante por cinco nos anos posteriores.

O antigo líder evoca que ao reassumir em 2013 em contexto de crise profunda com Processo Especial de Revitalização ativo e sem direção estabelecida logrou reerguer o clube, assegurando retorno à Liga em 2014/15, e saindo em 2018, mesmo com verbas desportivas exíguas, com o plantel firme na elite e mais de cinco ME de dívidas quitadas.

Herdeiro do lendário Valentim Loureiro a quem sucedeu em 1997, João Loureiro foi o presidente mais moço a conquistar o título nacional com 38 anos em 2000/01, rompendo o domínio dos três grandes, à semelhança do Belenenses em 1945/46.

No seu primeiro período até 2007, o emblema obteve ainda dois vice-campeonatos, três presenças na Liga dos Campeões e semifinais da Taça UEFA. Após pausa devida ao caso Apito Dourado do qual foi ilibado, retornou em 2013 para guiar a restauração administrativa e desportiva, antes de passar a faixa a Vítor Murta em dezembro de 2018.