Fernando Tavares defende veto da Benfica SAD a investidores norte-americanos
"Desejo que o Benfica exerça o veto à operação, com base no artigo 13.º, ponto dois, dos estatutos da SAD, uma vez que esta representa concorrência", declarou à Lusa Fernando Tavares, antigo dirigente do clube da Luz em duas fases distintas: de 2003 a 2008 e, posteriormente, de 2016 a 2025, sob as lideranças de Luís Filipe Vieira e também durante o primeiro mandato de Rui Costa.
O negócio em questão foi anunciado no fim de abril pelo empresário José António dos Santos, presidente do Grupo Valouro, para venda da sua participação de 16,38% na Benfica SAD ao fundo norte-americano Entrepreneur Equity Partners.
"Este género de investidor tem apenas um objetivo: adquirir, valorizar e abandonar rapidamente o ativo. A Benfica SAD carece de capital paciente e de parcerias de caráter mais institucional e estratégico", sublinhou.
De acordo com o ex-responsável pelas modalidades do Benfica, o fundo norte-americano desenvolve atividades no âmbito da organização de eventos desportivos, uma vez que gere espaços desportivos, e ainda participou na aquisição do Veneza, em Itália. Este facto possibilita que a SAD das águias impeça o negócio com fundamento nos seus estatutos, segundo ele.
"Além do mais, se analisarmos o contexto europeu, em todos os clubes com investimento norte-americano, os resultados desportivos não têm sido positivos. Isto porque este capital foca-se na valorização do seu património e participação. Em contrapartida, nós, benfiquistas, estamos profundamente focados nos êxitos desportivos", destacou.
E prosseguiu: "Num clube com a história do Benfica, este aspeto é crucial. Por isso, a Benfica SAD deve estabelecer parcerias que estejam em sintonia com os valores e a estratégia do clube. Defendo assim o veto, tanto por motivos legais, havendo essa possibilidade nos estatutos, como por razões estratégicas".
Fernando Tavares notou também que, embora a Entrepreneur Equity Partners seja um investidor com vasta experiência na gestão de recintos desportivos, numa altura em que o Benfica se prepara para a construção do Benfica District, projeto aprovado pelos sócios e que irá remodelar toda a área circundante ao Estádio da Luz, em Lisboa, incluindo equipamentos desportivos, a intenção do fundo é obter retorno financeiro e não o êxito desportivo.
"Este veículo irá exercer forte pressão financeira sobre o Benfica, pois pretende valorizar rapidamente a sua participação. Dificilmente deixará de ser um parceiro, digamos, adversário, uma vez que quer aumentar o valor da sua quota superior a 16%. Além disso, se somarmos os 16,38% aos 5,24% do outro fundo norte-americano (Lenore Sports Partners), pode formar-se um bloco com capacidade de influenciar a gestão do Benfica", assinalou.
A cerca de um ano, Luís Filipe Vieira, que presidiu ao clube de 2003 a 2021, alienou a sua quota de 5,24% na Benfica SAD ao fundo Lenore Sports Partners (LSP). Este tornou-se o terceiro maior acionista da SAD, enquanto o segundo é atualmente José António dos Santos, popularmente apelidado de Rei dos Frangos.
O Benfica possui 63,70% do capital, mantendo a maioria, e os outros 14,68% estão distribuídos por pequenos acionistas.
"O Benfica deve bloquear a operação e recomprar estas ações a José António dos Santos. Não terá dificuldades de financiamento, pois facilmente concretizaria uma operação financeira para as adquirir. E mais, se o Benfica tivesse dialogado com o senhor José António dos Santos há mais tempo, sendo ele benfiquista, certamente teria vendido as ações por um preço até mais baixo", afirmou.
Segundo o antigo dirigente, se o Benfica alcançar uma posição de cerca de 80%, ficará numa posição favorável para atrair investidores estratégicos, sintonizados com os objetivos desportivos.
"Sou bastante a favor do modelo do Bayern Munique, na Alemanha, que consiste em 50% mais 1%, com o capital restante repartido por parceiros estratégicos que acrescentam valor", concluiu.