Exclusivo: Roque Júnior apela a Neymar para estar "com a cabeça no sítio" e fazer a diferença no Mundial

Exclusivo: Roque Júnior apela a Neymar para estar "com a cabeça no sítio" e fazer a diferença no Mundial

Nesta conversa exclusiva com o Flashscore, o antigo futebolista aborda as probabilidades do Brasil no Mundial de 2026, realçando a eventual presença de Neymar e o papel do treinador Carlo Ancelotti.

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Com quatro épocas no Milan, Roque Júnior conhece bem o estilo de jogo do técnico italiano, convocado para solucionar as constantes oscilações da Seleção.

Roque, o público brasileiro considera o Brasil como um dos favoritos. Acredita que as falhas recentes em Mundiais abalaram a confiança dos adeptos brasileiros?

É complicado falar por tanta gente. Na minha perspetiva, acho que o Brasil não é apontado como favorito. A história é grandiosa com esta camisola, por possuir cinco títulos. Creio que o Brasil entra sempre como uma das hipóteses de vencer o título pela sua história, tanto neste Mundial como nos anteriores. Contudo, na minha opinião, se olharmos hoje, o Brasil não é um dos favoritos. Mas é difícil falar pela população, são 220 milhões de pessoas.

O que a presença de Carlo Ancelotti, que conhece tão bem, traz para a Seleção? Que estratégia podemos esperar da equipa?

Ele sabe lidar com as pessoas, não é por acaso que venceu em vários países diferentes. Isso é um aspeto relevante para saber lidar com uma cultura distinta da nossa. Não sei bem o que esperar, porque também vimos pouco. Pela mentalidade que possui, por ser italiano, preocupa-se muito com a parte defensiva. Trabalhou com outras culturas e adapta-se bem às características de cada jogador. Tem essa capacidade de liderança, de ter contacto com os jogadores e essa preocupação defensiva natural por ser italiano.

Há quem afirme que o Brasil tem perdido um pouco do seu ADN de futebol bonito. Uma das teorias é que o jogador brasileiro sai do país ainda muito jovem. Concorda com essa teoria?

Eu acho que perdemos um pouco do que era o nosso jogo. Acho que era um jogo muito mais individual e isso levava a que o jogador, tanto ofensiva como defensivamente, se tornasse forte individualmente nos aspetos técnicos ou mesmo táticos individuais. Perdemos isso um pouco, fomos invertendo essa ideia, trazendo muitas vezes o futebol que se praticava na Europa para dentro do Brasil. Isso perdeu-se na formação. Vê-se hoje que, se chegar à Seleção, sempre tivemos grandes avançados, grandes médios que desequilibravam. Na lista de Ancelotti, só temos o Neymar com esse perfil de qualidade e criatividade. E sempre tivemos jogadores assim do meio-campo para a frente. Temos um ou outro a surgir como avançado, mas muito pelos lados. Sempre tivemos também grandes pontas de lança, finalizadores. A formação mudou isso até dentro do nosso próprio campeonato, é uma das causas que faz com que hoje tenhamos menos jogadores com essa criatividade.

Explique, por favor, a um estrangeiro... Vini Júnior tem no Brasil a mesma reputação que Ronaldo, Ronaldinho ou até Neymar no seu auge?

É complicado fazer estas comparações, mas acho que o Vinicius tem um tipo de característica de um jogador que gosta de driblar, que recorda o jogador brasileiro. É uma característica diferente de Ronaldo, por exemplo. Não está ao mesmo nível de Ronaldo e Neymar. É uma peça fundamental no Real Madrid, mas ainda precisa evoluir para conseguir marcar a diferença na Seleção Brasileira.

Abordou um ponto que gostaria que fosse aprofundado. Podemos esperar do Brasil um futebol ofensivo ou uma abordagem mais pragmática neste Mundial?

É difícil falar. Tivemos vários treinadores, o Ancelotti chegou agora no final... Não temos jogadores dos quais se possa dizer: "tem uma característica mais ofensiva". Não temos hoje tantos jogadores que desequilibrem ofensivamente. Assim, olhamos para uma seleção que não é ofensiva, não tem grandes jogadores que desequilibrem. Temos um treinador que, nos trabalhos que fez, procura fortalecer muito o que cada jogador tem de melhor, procura juntar esses jogadores e criar ali um modelo de jogo, potenciando as características desses jogadores. Ele tem a cultura italiana, mais defensiva, não gosta de sofrer golos. Se fizer um a zero, ganha. Mas o que esperar é complicado. Temos que esperar para ver o que vai acontecer.

Para terminar, houve muito debate sobre se o Neymar devia ou não ir ao Mundial. O que ele pode trazer a esta Seleção Brasileira, como pode ajudar?

Acho que ele tem qualidade inegável, apesar de estar há muito tempo sem jogar de forma consecutiva. Quando se tem uma sequência de jogos, isso vai fazendo com que se tenha mais confiança e se vá melhorando. Nestes últimos anos, não conseguiu ser constante. Isso é um aspeto preocupante. No Mundial, serão quase dois meses entre treinos e jogos. Será importante ele estar bem fisicamente e com a cabeça no sítio. Sabendo que é um período curto, precisando de foco para conseguir dar o seu melhor. Ele precisa entender que é parte de um grupo e que pode ajudar pela sua capacidade, se estiver bem fisicamente. Acho que isso é importante, para que não tenha uma influência negativa. Temos um episódio no Mundial passado de um lance dele com o Richarlison que mostra essa importância. O Richarlison apanha uma bola e remata à baliza. E o Neymar reclama com ele. Quando acaba a primeira parte, a primeira coisa que o Richarlison faz é ir na direção do Neymar e pedir desculpa. Depois, quando volta para a segunda parte, todas as bolas que o Richarlison apanhava, ele olhava para o Neymar. Então, isso para mim é um ponto de cuidado. O Neymar e os outros jogadores precisam entender isso. Há alturas em que vou chutar à baliza e alguém pode reclamar. Mas eu devolvo também essa reclamação e isso de certa forma pode influenciar o outro jogador a não fazer determinada jogada depois. É importante o Neymar entender o seu papel, é importante ter jogadores que entendam o papel, mas que também tenham personalidade nesse momento. Porque isso é fundamental para que uma seleção ganhe. Em momentos como este, é preciso ter jogadores com personalidade e também um Neymar que seja uma liderança positiva e não negativa, porque isso influencia diretamente. Se for positiva, o que o Richarlison teria feito era tentar outras jogadas e não só olhar para o Neymar. Influencia-se negativamente e acaba por fazer com que, no momento da decisão, a melhor decisão não seja tomada. Acho que isso é um ponto que tem de ter atenção, tanto do Neymar, como dos outros jogadores e do Ancelotti.

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