Exclusivo: Rodrigo Caetano revela bastidores de Ancelotti e exalta postura de Neymar
Entre a ansiedade do mata-mata e o calor intenso dos Estados Unidos, o dirigente detalhou a convivência diária com Carlo Ancelotti, defendeu com firmeza o profissionalismo do elenco quanto ao período de folgas e destacou o papel fundamental de Neymar no ambiente do grupo.
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Às vésperas de enfrentar a Noruega, sob forte calor em solo norte-americano, Rodrigo Caetano destacou a mudança de "chip" necessária para a fase eliminatória após a vitória sobre o Japão.
O coordenador da Seleção exaltou a tranquilidade transmitida por Carlo Ancelotti — que disputa sua primeira Copa como treinador após ter sido assistente em 1994 — e valorizou a decisão da CBF de renovar o contrato do italiano antes mesmo do início do Mundial, priorizando a convicção no conceito de trabalho e na gestão compartilhada do técnico.
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O dirigente também foi enfático ao rebater os questionamentos externos sobre as folgas concedidas aos jogadores. Caetano revelou que, em 38 dias de concentração desde a apresentação na Granja Comary em 27 de maio, o grupo passou apenas três noites com seus familiares, ressaltando a maturidade e o foco dos atletas na recuperação mental. Por fim, rasgou elogios à postura de Neymar, classificando o camisa 10 como um líder positivo e humilde, totalmente alinhado ao mantra de Ancelotti: o objetivo maior não é ter o melhor jogador do torneio, mas sim formar a melhor seleção do Mundial.
Rodrigo, que semana decisiva! Domingo tem um jogo importantíssimo contra a Noruega. Você não entra mais em campo, já entrou como jogador, mas cuida de toda a logística da Seleção Brasileira. Você também fica nessa ansiedade?
Muito tenso. Muito tenso porque também é da natureza de quem competiu ter na veia esse negócio do competidor querer ganhar. Ainda mais numa Copa do Mundo, nesse nível de tensão em que você modifica o formato da competição.
Saímos de uma primeira fase de grupos para depois jogos eliminatórios, com uma fase a mais de eliminação. Então, quando a gente costuma dizer que tem que mudar um pouquinho o chip, é por causa disso. E aí aquele componente da tensão entra. Eu espero que agora, depois da grande vitória contra o Japão, até da forma como aconteceu, a gente possa administrar melhor essa questão da tensão e da ansiedade, que é natural quando envolve um jogo de tamanha importância.
Não é a primeira Copa do Ancelotti. Salvo engano, em 1994 ele estava como assistente. Mas como treinador principal passa a ser novo para ele também. Como ele está lidando com isso no dia a dia?
É diferente porque é um país inteiro, uma nação inteira numa expectativa gigantesca em cima da Seleção Brasileira. Isso muda um pouco. Mas no que diz respeito aos enfrentamentos e a esses jogos eliminatórios, ele está acostumado. Ele viveu isso durante muitos anos em Champions, nas ligas. Ele convive bem com a responsabilidade e desfruta disso. Ele sempre repete que é uma enorme honra e um prazer estar treinando a Seleção Brasileira. Ele é um sujeito que, por si só, é mais calmo e mais tranquilo, então consegue passar para nós essa tranquilidade, principalmente nos momentos que antecedem esses jogos.
Você poderia contar um bastidor? Nos treinos, reparo vocês dois conversando o tempo todo antes das atividades. O que tanto vocês conversam ali no dia a dia?
Muitas coisas. Dia a dia mesmo, curiosidades e, obviamente, outras questões sobre o trabalho e sobre o time, que essas nem sob tortura eu falo! (risos) Mas tem sido um aprendizado muito grande para mim, porque essa tranquilidade ele transmite mesmo. São ensinamentos quietos, por exemplo.
Ele tem algumas tiradas bem bacanas de quem viveu muito e consegue transmitir isso. São coisas que vão ficar guardadas para as situações que provavelmente enfrentaremos lá na frente. Eu procuro absorver o máximo que posso desse período de convívio com ele, tem me feito muito bem na minha formação como profissional e como pessoa também. Criamos uma sintonia realmente muito grande de um ano para cá e, independentemente do que vier a acontecer para frente, sem dúvida alguma vai ser um amigo que vou levar para a vida toda.
Quando teve a contratação dele, você já estava na CBF desde fevereiro de 2024 e passou por mudanças de presidente e de técnicos. Bateu alguma incerteza sobre como seria trabalhar com um multicampeão? Você procurou saber com quem já trabalhou com ele?
Sim, é natural. Tive informações com os brasileiros que trabalharam com ele e a informação era sempre a mesma: de um sujeito muito leve, de fácil trato e que gosta dos brasileiros. Ele realmente compartilha tudo o que diz respeito ao trabalho e isso valoriza demais. Muitas vezes, a gente não vê isso em alguns profissionais do Brasil. Ele não é fechadão nem traz para si todo e qualquer tipo de decisão. A decisão é compartilhada e envolve a todos, em todos os níveis, o que aumenta a nossa responsabilidade, mas faz com que todos se sintam valorizados. Quando finalizou a contratação dele, eu e o Juan fomos até Madri. Tivemos a primeira reunião pessoal com ele quando ele ainda iria fazer o último jogo do Real Madrid. Ali apresentamos nosso método de trabalho, ele conheceu um pouquinho da gente, e essa ida acelerou o processo de entendimento que temos até hoje.
Dizem que a primeira impressão é a que fica. Qual foi a primeira impressão que você teve dele em Madri?
A melhor possível. Quando chegamos na casa dele, ele mesmo estava lá para nos receber. Tivemos a oportunidade de almoçar e, a partir de então, o contato era frequente e diário. Aquilo que vocês veem no dia a dia e nas entrevistas — uma pessoa muito simples, com grandes tiradas, alegre — é exatamente o que ele é. Ele traz uma leveza para o ambiente que não é muito comum. Sabe da responsabilidade e da necessidade de resultado, mas não torna isso um fardo; torna um orgulho, uma honra, um prazer. E aí tudo fica mais fácil.
Isso explica também as folgas que a Seleção tem tido? Há quem fale que em Copa do Mundo o grupo tem que ficar fechado. Essa visão dele mostra que dá tempo para tudo?
Sempre teve folga. Não entendo esse questionamento. Eu falo por mim: nós nos apresentamos no dia 27 de maio na Granja Comary. Hoje estamos no dia 3 de julho. Durante todo esse período — 37, quase 38 dias —, se eu dormi com a minha família, foram três vezes. Significa que para os atletas foi o mesmo. Foram três noites com nossos familiares em quase 40 dias. Nós temos um grupo onde todos são extremamente responsáveis. Talvez quem fale isso seja porque, em épocas passadas, a folga significava um outro objetivo, como uma saída ou balada. Os nossos objetivos são permanecer com a família.
Ninguém preocupa você nesse grupo quanto a isso?
Zero. Talvez porque não dê pauta negativa, até a folga é contestada. Talvez se os nossos atletas saíssem daqui em algum dia para uma balada e ficassem a noite sem dormir, esses que criticam estariam satisfeitos. Mas como nossos jogadores são extremamente profissionais e conscientes do momento, chega a ser motivo de frustração ver isso. O externo vai criticar sempre, vai ver o lado negativo na grande maioria das vezes, mas vamos seguir nosso trabalho. O resultado do jogo às vezes nós não controlamos, mas o que controlamos fora dele está perfeito: não há um deslize de nenhum atleta. É importante recarregar as energias com os familiares. A folga faz parte da recuperação mental que é necessária para todos.
Vocês avaliaram esse perfil dos jogadores — de saber dosar folga e família — na hora de montar a lista final de convocados?
Sinceramente, não. Mudou muito o perfil do atleta hoje em dia. Os caras são extremamente profissionais, sabem a necessidade de recuperação e comportamento, eles próprios se cobram. Os fatores para a lista foram muitos outros. Um grupo precisa ser heterogêneo, não adianta ter apenas um perfil.
Mas estamos muito tranquilos porque as regras que aplicamos aqui são claras e foram esclarecidas em todas as convocações anteriores e aqui na Copa. Eles têm sentimento de pertencimento ao plano de trabalho. Mas volto a dizer: no futebol, nada disso será reconhecido caso o Brasil não chegue. É o único lugar onde primeiro você precisa ter resultado para depois ter tempo, quando a lógica deveria ser o inverso.
A CBF não está tentando quebrar exatamente essa lógica do futebol ao renovar o contrato do Carlo Ancelotti antes de começar a competição?
Sem dúvida. É um dos maiores sinais disso. É uma das poucas vezes em que se tomou essa decisão antes do resultado, antes de uma grande competição, avaliando o conceito e a qualidade do trabalho em vez do placar imediato. Estamos sinalizando convicção na sequência do trabalho. Temos certeza de que não vamos agradar a todos, o que desejamos é tentar fazer um grande trabalho e representar bem o nosso povo.
Para fechar, como está sendo o dia a dia com o Neymar? Ele levou um tempo para se recuperar da lesão, ficou no banco e o Ancelotti disse que ele está pronto. Como ele lida com o fato de começar no banco, já que não foi reserva na carreira?
Muito tranquilo. Sinceramente, o Neymar é um sujeito admirável, muito humilde e muito querido por todos. Vocês comprovam no dia a dia como ele está animado e feliz. Ele passou por uma lesão e o retorno gradual é natural, mas nunca ninguém questionou a qualidade e a importância dele.
Por isso ficou conosco esse tempo todo e aportamos toda a nossa capacidade para recuperá-lo. Em que momento do jogo ele vai ser utilizado é uma decisão do Ancelotti em prol do todo. O que vem sendo repetido é um mantra do nosso treinador: nós não vamos à Copa do Mundo para ter o melhor jogador do mundo, nós vamos para tentar ser a melhor seleção da Copa do Mundo. O esporte é coletivo e o Neymar tem sido um grande líder positivo em todos os sentidos, engajado nas nossas diretrizes. Tenho certeza absoluta de que, no momento em que mais precisarmos, ele vai dar dentro de campo aquilo que sempre deu. Afinal, é o maior artilheiro da história da Seleção e não é por acaso.
Rodrigo, que no domingo possamos vencer a Noruega. O calor vai ser puxado nos Estados Unidos para encarar um dos maiores centroavantes do mundo e tentar tirar mais um europeu do caminho do Brasil.
Demais, o jogo vai ser puxado pelo calor. Esperamos passar mais esse obstáculo contra um grande adversário que tem o Haaland, ir crescendo na competição e chegar às quartas de final para sonhar com algo a mais. Já nos preparamos e seguimos trabalhando até domingo. É o dia de tentar tirar um europeu do nosso caminho, já que nas últimas Copas foram eles que nos eliminaram.