Exclusivo com Gianluca Nani: do Brescia de Baggio e Guardiola aos segredos da Udinese

Exclusivo com Gianluca Nani: do Brescia de Baggio e Guardiola aos segredos da Udinese

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Foi o senhor que encontrou Andrea Pirlo e formou uma equipa notável no Brescia...

Ah, sim. Foi ali que tudo teve início. Naquele período, contávamos com Pirlo, (Roberto) Baggio, (Pep) Guardiola, Luca Toni, Igli Tare, (Daniele) Bonera e vários outros no mesmo grupo. Havia também um jovem talento da Eslováquia: Marek Hamsik. Realizámos um excelente esforço nessa fase e eu apreciei imenso.

Lembra-se da narrativa sobre a vinda de Hamsik ao Brescia?

Sim, observávamos um campeonato juvenil e ele actuava na equipa secundária do seu embaixamento. Costumo afirmar que identificar um talento excecional não se resume a ser o único a notar o potencial, pois quando alguém é extraordinário, todos o percebem. O essencial é antecipar os demais. É essa a essência dos mecanismos de descoberta da Udinese e do Watford: planeamos deslocações para sermos os primeiros. Assim ocorreu com Marek e repete-se com os atletas que agora surgem via rede de observadores da família Pozzo.

Com talentos como Hamsik ou Pirlo, surge logo uma atração imediata, ao intuir algo único?

Não, de todo. Muitas vezes, dirigimo-nos a um atleta porque um contacto da nossa malha de prospeção nos alerta. É fundamental reconhecer que, outrora, o scouting era bem distinto. Hoje dispomos de ferramentas como a Wyscout; qualquer um pode analisar qualquer um de qualquer ponto do planeta. Antes, exigia investigação e deslocações. Quando se labora num clube sem vastos recursos financeiros, urge ser inventivo. As formações de elite frequentam os eventos internacionais de sub-17 ou sub-19 e os Mundiais. Para rivalizar, a escolha de competições e o método de observação devem inovar.

Relativamente a equipas com recursos limitados, como persuadiu Baggio e Guardiola a integrarem o Brescia?

Com Baggio, tivemos fortuna. Ele ansiava regressar para concluir a carreira próximo de sua residência em Vicenza, e o Brescia militava na Série A enquanto Vicenza não. Ao envolvermos Roberto, simplificou-se o resto. Até a adesão de Pep Guardiola. Ter dois dos maiores nomes do futebol facilita atrair os restantes. Eram autênticos líderes além do relvado. Recordo Pep Guardiola a recolher jovens da academia de automóvel para os treinos. Consegue visualizar? Um rapaz de 11 anos ao lado do ex-capitão do Barcelona! Que personalidade admirável!

Acontece o mesmo em Udine. Muitos craques desfilaram pela Udinese: Alexis Sanchez, (Márcio) Amoroso, (Samir) Handanovic. Em janeiro, incorporámos dois promissores juvenis, Juan Arizala e Branimir Mlacic. Ambos dialogavam com as principais agremiações.

Não rivalizamos com salários elevados, mas os jovens sabem que na Udinese ou no Watford encontram chances reais de actuar. Detectamos promessas, elevamos seu nível e, frequentemente, migram para os colossos. É um esforço mútuo.

Atualmente, o papel de olheiro é mais sedentário ou ainda frequenta partidas das camadas jovens ao vivo?

Ao presenciar em directo, capta-se a essência, o temperamento, mais elementos. No vídeo, identifica-se a habilidade, mas requer encontro pessoal para avaliar conduta e índole. O carácter e a determinação por vezes superam a técnica.

Cita um caso de atleta com técnica inicial modesta, mas com vontade tão robusta que ascendeu ao pináculo?

Um é Hamsik, certamente. Aos 15 anos, exibia a maturidade de um veterano de 30. Outro, já citado, Mlacic, que recentemente integrou. Com 18 anos, comporta-se como adulto. Seu olhar firme e interrogações revelam o traço especial. Já vivi o oposto: convidei um para o clube e, após, desisti por sua atitude ou interações.

"É simples expor o nosso plano"

Recrutar é um aspeto, mas progredir é outro. Qual o truque da Udinese para aprimorar atletas e transferi-los a formações maiores?

Refiro sempre à equipa que nossa tarefa inicia ao assinar o contrato. Muitos creem que o desafio cessa no acordo, mas aí desponta a administração e o aperfeiçoamento. Sem orçamentos colossais, cada elemento deve evoluir plenamente. Cada euro importa. Erros são proibidos. A Udinese soma 32 épocas seguidas na Serie A. Poucos o lograram, e disputamos com titãs. Cuidamos de cada detalhe.

Qual o vosso trunfo ao dialogar com um atleta face a potências como Inter ou AC Milan?

O campo e nosso historial. Bastando rever a galeria de quem nos visitou, o plano vende-se sozinho. Tome Nicolo Zaniolo. Militou no Galatasaray, Roma, Atalanta e Aston Villa. Declarou publicamente que na Udinese nos preparam para excelência.

Somos urbe de 100 mil almas contra metrópoles de cinco milhões. Nossa força reside na estrutura: preparação, nutrição e avertação de contusões. Para nós, um lesionado pesa, pois o elenco é enxuto.

Há três décadas no futebol de elite. Confia nas análises e dados contemporâneos ou prioriza a intuição?

Gerimos estatísticas, mas contamos com figuras como o Sr. Pozzo, Andrea Carnevale e eu, com 30 anos de experiência, como mencionou. Possuímos o saber. Empreguemos dados para delinear um "perfil" físico por posição, buscando atributos precisos. Contudo, certos aspetos escapam às métricas. As de Marek Hamsik aos 15 eram nulas, pois mal jogava! Aí intervém o faro do observador.

Quantos prospeitores operam globalmente?

Não é a quantidade, mas a excelência. Opto por um núcleo compacto. Troca-se dados entre Udinese e Watford. Às vezes, um perfil adequa-se melhor ao futebol inglês que ao continental, ou inverso. Mantemos rede seleta e eficiente.

Quando conversámos sucintamente antes desta conversa, aludiu que a ligação Udinese-Watford é chance única. Porquê?

É benefício absoluto para ambas. Um como Keinan Davis não rendeu no Watford, mas aqui brilha. Inversamente, Mamadou Doumbia ou Edoardo Bove prosperaram no contexto inglês. Essa parceria permite evolução no ambiente ideal.

Algum atleta pelo qual sinta orgulho especial ao tê-lo revelado ou moldado?

Enalteço todos. Seja por achar Hamsik aos 15 ou ver Zaniolo revitalizar-se aqui e dizer: "Vocês me ressuscitaram". Colabora com grupo superior a mim. Uma coletividade sólida vale mais que um só.

Questão final, regressando ao princípio. Desde o encontro com Pep Guardiola como atleta, era evidente seu futuro vitorioso como técnico?

Absolutamente. No Brescia, já raciocinava distinto. Era excecionalmente sagaz. Notava-se no jogo: antevia o passe antes de dominar. Antecipava sempre. Eu pressentia que viria a ser treinador. Não o melhor global, mas sim um técnico competente.

Tive outro que se destacou como técnico: Roberto De Zerbi. Honestamente, De Zerbi actuava como 10, à la Baggio. Tipicamente, esses buscam bola para resolver sós. Guardiola distinguia-se, central, observava tudo.

Considera casual que tantos tops técnicos sejam médios criativos?

Não casual, mas não lei universal. Varia do intelecto. Dino Zoff foi guarda-redes, Johan Cruyff um 10. Porém, no meio-campo, integra-se o cerne do jogo, e essa perspetiva auxilia decerto.