Exclusivo com Cacau: O avançado brasileiro que conquistou um lugar na seleção alemã
"A Alemanha acolheu-me e dei tudo por este país"
- Nasceu e cresceu no interior de São Paulo, iniciando a carreira no Palmeiras. Como foi vestir a camisola de uma seleção e de um país que nunca imaginou representar na infância?
É algo verdadeiramente indescritível. Naquela altura, tal cenário era impensável. A minha jornada foi distinta da maioria dos profissionais brasileiros, recrutados diretamente para a Bundesliga. Joguei nas categorias de base do Palmeiras até aos sub-17, sendo depois dispensado. Passei pelo futebol amador paulista e pelo Nacional-SP.
Em 2000, decidi tentar sorte na Alemanha. Iniciei no Türkgücü München, clube da quinta divisão com forte identidade turca. Através do Nuremberga, na quarta divisão, alcancei a Bundesliga, chegando depois ao Estugarda e, finalmente, à seleção nacional alemã.
Sou um grande entusiasta do Mundial. Recordo-me de chorar, aos nove anos, quando o Brasil perdeu para a Argentina em 1990. As lágrimas de alegria foram maiores ao conquistarmos o título em 1994. Com o tempo, a paixão de adepto transformou-se, mas o sonho de participar num Mundial permaneceu.
Obter a nacionalidade alemã, ser convocado e disputar um Campeonato do Mundo ainda me parece surreal. Estamos a falar de uma das maiores potências futebolísticas - não basta a naturalização, é preciso desempenho excecional. Representar este país, ser bem recebido e fazer parte de um histórico Mundial em África enche-me de orgulho.
- Quando Joachim Löw o convocou, houve hesitações ou foi uma decisão fácil?
Todo brasileiro sonha jogar pela Seleção. Porém, a carreira por vezes segue caminhos imprevistos. Antes de decidir, quis saber se havia perspetivas no Brasil.
Contactei Jorginho, então adjunto de Dunga. Não perguntei diretamente, mas abordei o tema: 'Para seu conhecimento: recebi um convite para a seleção alemã'. A resposta foi: 'Parabéns, amigo! Continua o bom trabalho e boa sorte!' (risos)
Percebi que a porta do Brasil estaria fechada. Aceitei o convite com convicção. Repito sempre: A Alemanha acolheu-me e dei tudo por este país.
- Chegou a Munique para atuar na 5ª divisão. Pensou em desistir quando ficou sete meses sem receber?
Foi um período árduo. Ganhava 500 marcos mensais (cerca de 250 euros). Um amigo acolheu-me, garantindo sustento e apoio. Sete meses sem salário, treinando na neve, mas a desistência nunca passou pela cabeça. Regressar ao Brasil não era opção, pois não havia perspetivas desportivas.
- Qual era o maior sonho quando começou a jogar?
- Tornar-me profissional para ajudar minha família. Queria proporcionar uma vida digna à minha mãe, comprar-lhe uma casa. Conseguir isso relativamente cedo foi a maior sorte. Os golos e títulos vieram depois. No início, era questão de sobrevivência. O sucesso desportivo estava ligado à segurança da família.
- Teve uma infância difícil?
- Sim, viemos de origens humildes. Meu pai era alcoólico, hospitalizado frequentemente. Minha mãe trabalhava como empregada de limpeza, fazendo o possível para nos dar o melhor. Nós, irmãos, retribuíamos com bons resultados escolares. O futebol foi minha válvula de escape para uma vida melhor.
- Jogar em bairros perigosos de São Paulo preparou-o para a pressão da Allianz Arena?
São pressões diferentes. No profissionalismo, é positiva. Joguei em zonas como São Miguel Paulista, Ermelino Matarazzo ou Itaim Paulista. Lembro-me de um golo marcado numa favela, com um remate de esquerda no ângulo. Fiquei feliz com o golo, mas mais aliviado por sair ileso devido aos perigos.
Noutra ocasião, estávamos a vencer por 4-0 fora e os adversários disseram: "Amigo, para de marcar. 4-0 chega, estás a humilhar-nos. Pede desculpa já" (risos)
Estas experiências moldam-nos. No profissionalismo, há pressão - estádios lotados, relvados perfeitos, sem margem para erro -, mas é o fruto do trabalho feito em condições adversas. Jogar nesse nível e conquistar títulos é um privilégio. A pressão não se compara.
- Os jogadores brasileiros atuais lidam bem com essa pressão?
Falta a alguns a noção da alternativa: sem pressão, seria o amadorismo, sem ganhos ou num nível inferior. É preciso consciência de que estar no topo é uma dádiva.
As redes sociais acrescentam fatores. Espera-se que jovens de 12-13 anos sejam o próximo Pelé ou Neymar. Surpreende-me quando profissionais reclamam de "pressão excessiva". A pressão é intrínseca ao jogo. Sem ela, perderia o fascínio.
- Qual foi o momento de maior pressão na carreira?
O jogo contra o Gana no Mundial-2010. Após vencer a Austrália, perdemos para a Sérvia. Uma derrota eliminaria a Alemanha na fase de grupos pela primeira vez.
Com Klose suspenso, fui titular. Mais de 90 mil pessoas no estádio, mil milhões a assistir. Entrei com auscultadores, repetindo: "É um jogo normal. Faz o que sempre fizeste".
É crucial manter a frieza. Superar essa barreira fortalece mentalmente.
- Maior alegria: ver a mãe no estádio ou marcar?
Foi uma montanha-russa emocional. A convocatória, os jogos, o golo contra a Austrália. Lesionei-me a meio do torneio, partindo uma costela diagnosticada tardiamente. Mesmo assim, joguei na disputa do terceiro lugar.
Minha família estava nas bancadas. O momento em que os procurei com o olhar antes dos hinos permanece gravado no coração.
- Qual a primeira lembrança do Mundial-2010?
Além do meu golo, as vuvuzelas. E as músicas que criavam uma atmosfera única. O golo que fechou o 4-0 contra a Austrália na estreia será sempre um marco.
- As vuvuzelas atrapalhavam os jogadores?
Horrível. Era impossível comunicar em campo ou entender instruções táticas. Um zumbido incessante e exasperante.
- E o título pelo Estugarda em 2007?
O apito final, a vitória em casa, o estádio em festa. Vencíamos o Cottbus após estarmos a perder. A celebração com 200 mil pessoas pela cidade foi inesquecível.
- O domínio do Bayern prejudica a Bundesliga?
Sem dúvida. Contudo, os rivais nem sempre souberam capitalizar as fragilidades do Bayern. O respeito é excessivo, parecendo que equipas se contentam com derrotas mínimas.
- Os clubes precisam de mais audácia.
Solucionar com medidas artificiais, como teto salarial, arrisca a competitividade europeia. O futebol vive de surpresas. O Leverkusen mostrou há dois anos como desafiar. Espero que outros sigam o exemplo.
- A seleção alemã está pronta para o Mundial?
A equipa ainda se está a descobrir. Lesões, más fases individuais e eliminatórias abaixo das expectativas influenciam. A Alemanha tem potencial para estar entre os favoritos. Com a táctica certa, será difícil de vencer.
- Qual jogador alemão pode surpreender?
Lennart Karl, do Bayern. Um talento que amadureceu rapidamente, tanto no clube como na seleção. Sua capacidade em situações de um contra um e o pé esquerdo potente trazem elementos valiosos para o futebol moderno.
- Experiência mais difícil com Felix Magath?
Era intenso. Treinos físicos e psicológicos brutais. Corríamos de manhã sem saber se haveria sessão à tarde. No bosque, não se sabia a distância ou ritmo. Às vezes, após completar, ouvía-se: "Mais uma volta!".
Foi valioso para aprender a superar limites, mas um ano bastou (risos). Esses métodos não funcionariam hoje.