Exclusivo: Cacau revela por que aceitou jogar pela Alemanha e conta seus piores momentos

Exclusivo: Cacau revela por que aceitou jogar pela Alemanha e conta seus piores momentos

Numa entrevista exclusiva ao Flashscore, Cacau partilha a sua jornada desde os campos de terra até à Copa do Mundo, como sobreviveu num clube da 5ª divisão que não pagava salários e como se tornou um ídolo eterno do Stuttgart, onde passou 11 temporadas, incluindo o último título da Bundesliga do clube em 2007.

O ex-jogador de 45 anos também falou sobre a sua infância difícil e explicou porque é que a vuvuzela no Mundial de 2010 era um problema dentro de campo.

Nesta conversa, Cacau mostrou porque o seu carisma ultrapassa barreiras. Leia a entrevista completa:

• Nasceu e cresceu no interior de São Paulo, começou a jogar futebol nas bases do Palmeiras. Como foi vestir a camisola de uma seleção de um país onde provavelmente nunca imaginou viver quando era criança?

Na verdade, é algo indescritível. Algo que na altura era impensável. Segui um caminho diferente da maioria dos jogadores brasileiros. Muitos são contratados diretamente para jogar na Bundesliga. Eu joguei nas bases do Palmeiras até aos sub-17, depois fui dispensado. Joguei nos campos de várzea de São Paulo. Passei brevemente pelo Nacional-SP e em 2000 vim para a Alemanha tentar a minha sorte. Fiz um teste num clube da quinta divisão, um clube da comunidade turca, o Türkgücü de Munique. Joguei na quinta divisão, depois na quarta divisão pelo Nuremberg B, e consegui chegar à Bundesliga através do Nuremberg. Depois fui para o Stuttgart, fui campeão alemão e cheguei à seleção alemã.

Sou um grande fã da Copa do Mundo. Lembro-me de chorar aos 9 anos quando o Brasil foi eliminado pela Argentina na Copa de 90. Chorei ainda mais com o título mundial de 94. Claro que, à medida que cresces e jogas, essa emoção diminui, mas sempre sonhei com a Copa do Mundo. Ter a oportunidade de me naturalizar alemão, ser convocado para a seleção alemã e participar num Mundial é algo que ainda hoje me parece surreal. Porque estás num país diferente, um país de topo no futebol, e a qualidade tem de estar lá, não é só "naturalizas e jogas". Poder representar este país, ser bem recebido e jogar num Mundial histórico em África é algo que ainda hoje me enche de orgulho.

• Quando Joachim Löwe, então treinador da Alemanha, o convocou para a seleção, sentiu algum conflito interno ou foi uma decisão fácil?

Obviamente, cresci com a seleção brasileira e queria jogar por ela, mas o caminho profissional leva-nos por direções que por vezes não imaginamos.

Quando recebi o convite, queria ter certeza de que não teria realmente uma oportunidade pelo Brasil. Queria ter a segurança de estar a tomar a decisão certa. Tinha contacto com Jorginho, o lateral-direito, que na altura era assistente de Dunga na seleção, e escrevi-lhe. Não queria perguntar diretamente, fui indireto: "Só para saberes, fui convocado aqui, o treinador chamou-me, vou para a seleção". Ele respondeu: "Poxa, cara, fico muito feliz, parabéns, vai em frente, desejo-te sucesso". (Risos). Para mim, foi a resposta de que, ok, provavelmente não teria essa oportunidade na seleção brasileira e aceitaria o convite. Aceitei de coração e sempre digo com convicção que a Alemanha me adotou e joguei com alma e coração.

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• Chegou a Munique para jogar num clube da 5ª divisão. Pensou em desistir quando deixaram de lhe pagar o salário durante 7 meses?

Foram momentos muito difíceis. Ganhava pouco, 500 marcos por mês, cerca de 250 euros. Morava com um amigo que me acolheu na altura e me ajudava no dia a dia. Fiquei sete meses sem receber, treinava na neve...

Mesmo com todas as dificuldades, nunca pensei em desistir. Voltar não era uma opção, porque não tinha um futuro garantido no Brasil.

• Qual era o seu sonho de infância quando começou a jogar futebol?

O meu sonho era jogar futebol e, através dele, ajudar a minha família. Era dar uma boa vida à minha mãe, uma casa para ela. Conseguir isso "cedo" foi muito gratificante. Todas as outras coisas foram consequências. Claro que queres marcar golos, ganhar títulos, mas era também uma questão de sobrevivência. O sucesso misturava-se com o desejo de dar um futuro à minha família.

• Teve uma infância muito difícil?

Vim de uma família pobre. O meu pai, infelizmente, tinha problemas com o álcool e foi internado várias vezes. A minha mãe trabalhava como empregada de limpeza e fez de tudo para nos criar e dar o melhor. Tentávamos retribuir indo bem na escola e o futebol era uma forma de me sentir valorizado e de criar um caminho para lhe dar um futuro melhor.

• Quando jogava nos campos de várzea no Brasil, passou por zonas muito perigosas de São Paulo. Um jogador que passa por essa experiência não sente pressão ao entrar num estádio como a Allianz Arena cheio?

É uma pressão diferente, certo? (No futebol de elite) é uma pressão super positiva. Joguei em São Miguel Paulista, Ermelino Matarazzo, Itaim Paulista. Lembro-me de um jogo em que marquei um golaço de esquerda no ângulo, mas era no meio de uma favela, então estava feliz por marcar, mas também por conseguir sair dali em segurança.

Noutro jogo, estávamos a ganhar 4-0 e os adversários disseram: "Ei, para de marcar, já chega, 4-0, estás a humilhar-nos". O que eu disse? "Desculpa", certo? (risos).

Tudo isso nos forma. No futebol profissional, é outra pressão, mas estás num estádio, num relvado perfeito, a jogar diante de 50 mil pessoas. Claro que há pressão, claro que não queres errar, mas é o fruto do que plantaste no passado. Estás a colher agora e poder jogar ali, ganhar títulos, é inigualável. São pressões diferentes, diria.

• Os jogadores brasileiros de hoje não sabem lidar bem com essa pressão?

Acho que falta a consciência do que seria não ter essa pressão, não ter essa exigência.

Não ter essa exigência seria jogar nos campos de várzea, ou não vencer, estar num nível muito mais baixo. É preciso reconhecer que é um privilégio estar ali e fazer por merecer. Claro, hoje há outros fatores, os jogadores crescem com as redes sociais, então com 12, 13 anos já são o próximo Pelé, o próximo Ronaldinho Gaúcho, o próximo Neymar, e essa pressão vem desde cedo.

Hoje em dia surpreende-me alguns jogadores falarem em "pressão muito grande". Claro que a pressão é sempre grande. Um jogo sem exigência do treinador, sem exigência da torcida, sem exigência da imprensa, perde a magia.

• Qual foi a maior pressão que enfrentou na carreira?

Talvez o jogo com mais pressão para mim, onde fiquei feliz por vencer, foi contra o Gana na Copa do Mundo. Ganhámos o primeiro jogo contra a Austrália, perdemos o segundo contra a Sérvia, e se perdêssemos contra o Gana, seria a primeira vez que a Alemanha saía na fase de grupos num Mundial. Joguei como titular nesse jogo, porque o Klose foi expulso contra a Sérvia, e, cara, havia mais de 90 mil pessoas no estádio, mil milhões a assistir no mundo inteiro, todos a pensar "será que a Alemanha vai cair na fase de grupos pela primeira vez"? Lembro-me de entrar no estádio com headphones, música alta, e a dizer para mim mesmo: "É um jogo normal, entra ali, é o que fizeste a vida toda".

Mas tens de preparar a mente, não podes deixar que a emoção te domine, senão não consegues jogar. Conseguir vencer esse jogo e avançar foi algo que me deixou mais forte para enfrentar outras situações.

• Ver a sua mãe no estádio na Copa foi uma realização tão grande como marcar um golo?

Foi uma montanha-russa de emoções. Primeiro fui considerado para a Copa, depois convocado, pude jogar, entrar num jogo, marcar num Mundial, e no meio do caminho lesionei-me e não joguei os jogos mais importantes contra Inglaterra, Argentina e Espanha.

Mas mesmo com a lesão — parti uma costela, que só foi diagnosticada muito depois —, disse: "Jogo do terceiro lugar, vou jogar". A minha mãe, os meus irmãos e o meu pai estiveram no estádio. Lembro-me de me alinhar com a seleção antes de cantar o hino e trocar olhares com eles.

Esse momento marcou-me muito. Ainda hoje é algo demasiado grandioso para expressar com palavras.

• Quando se lembra da Copa de 2010, qual é a primeira memória que lhe vem à mente?

Além do golo que marquei contra a Austrália, claro, a vuvuzela. Também as músicas contagiantes, os temas da Copa, que transmitiram a atmosfera e a sensação do Mundial. E claro, o golo contra a Austrália, num jogo que a Alemanha venceu 4-0 na estreia, é algo que ficará para sempre na memória.

• A vuvuzela atrapalhava os jogadores em campo? Ou só os espectadores?

Demais, era horrível. Não conseguias conversar, não ouvias as informações. Imagina, ninguém consegue tocar vuvuzela o tempo todo, mas alternando, parecia um zumbido constante, e isso incomodava muito.

• Quando se lembra da Bundesliga de 2007, o último título do Stuttgart, qual é a primeira memória que lhe vem?

A memória do último jogo, da vitória, do estádio a explodir. Contra o Cottbus, começámos a perder 1-0. Viramos o jogo e a torcida, depois de 15 anos, celebrou o título. Saímos em carro aberto pela cidade, mais de 200 mil pessoas...

• Hoje a Bundesliga começa e já sabemos quem será campeão. Isso não é um problema para o campeonato e como pode ser corrigido?

É um problema para o campeonato, sem dúvida. Além da força do Bayern, há outro lado. Os outros clubes também não trabalham na perfeição. Perfeição no sentido de "se o Bayern der uma brecha, eu vou aproveitar". O Bayern deu várias brechas nos últimos anos e os clubes não conseguiram aproveitar. Há um respeito exagerado pelo Bayern, hoje parece que os clubes celebram por perder só por um golo.

Acho que além da força do Bayern, é preciso mais coragem dos outros clubes. Não vejo uma forma de corrigir esta hegemonia do Bayern, porque não se devem impor regras para tentar enfraquecer artificialmente o clube. Fala-se em limite salarial para equilibrar a liga, mas isso prejudica na Europa. O futebol vive de surpresas, esperamos que nos próximos anos haja mais. O Leverkusen mostrou como se faz há dois anos e espero que surja outro clube.

• Qual foi o pior momento que passou com Felix Magath, o ex-treinador do Stuttgart conhecido pelo estilo militar de treinar?

Com ele só passei momentos difíceis (risos). Foi outra escola. Era uma pressão física porque treinávamos muito, muito intensamente, e uma pressão psicológica.

Treinávamos de manhã e não sabíamos se haveria treino à tarde. Acordávamos às 7h30, íamos correr e não sabíamos quanto ou quão rápido. Às vezes dávamos uma volta e tínhamos de dar mais uma. Foi uma experiência válida, aprendi a expandir os meus limites, mas foi bom só por um ano (risos). São métodos que hoje não funcionariam.

• Tem algum carinho pelo Palmeiras por ter passado lá?

(Risos) Pela minha risada, já sabes a resposta. Carinho pelo Palmeiras seria exagero. Primeiro porque me dispensaram. Segundo porque, na altura, já fazia um esforço por jogar lá sendo corintiano. Herdei do meu pai o corintianismo. Torço pelo Corinthians sempre que posso.

• Chegou ao Palmeiras no início da era Parmalat. Algum craque daquele tempo o marcou?

Cheguei na altura da transição. Acho que até usámos as camisas que não eram da Parmalat na base. Lembro-me de jogar com uma camisa toda verde.

Tenho uma história que depois tentei aplicar. Alguns jogadores que não tinham boa nutrição iam buscar um medicamento no CT do Palmeiras. Um dia, de manhã, estávamos à espera e passaram vários jogadores, todas as estrelas da época. Lembro-me que poucos nos diziam bom dia. Um deles foi Antônio Carlos Zago, o defesa.

Isso marcou-me. Não fiquei zangado com quem não disse bom dia, mas quem disse ficou para sempre na memória. Quando me tornei profissional, tentei fazer o mesmo, dar atenção à torcida, aos jogadores mais jovens, para talvez ser lembrado no futuro.