Escritor português em Berlim realça o papel político nos Campeonatos do Mundo de Futebol no seu livro recente

Escritor português em Berlim realça o papel político nos Campeonatos do Mundo de Futebol no seu livro recente

Em entrevista sobre o livro “Griff nach Gold: Die andere Geschichte der Fußball-Weltmeisterschaft” ("Corrida ao Ouro: A Outra Narrativa do Campeonato do Mundo de Futebol", numa tradução aproximada), coescrito com o sociólogo Glenn Jäger, Carlos Gomes identifica como foco central a controvérsia relativa ao Mundial no Catar, realizado em 2022.

O autor, que vive em Berlim e desenvolve pesquisas em estudos sociais e culturais, observa que as críticas oriundas de diversos países europeus foram influenciadas, em certa medida, por um “eurocentrismo” e por uma aplicação de “critérios duplos”, mesmo considerando as justas objeções quanto às condições laborais e aos direitos humanos.

“Existiu uma ampla campanha de boicote (...) e alguns atletas expressaram reservas”, declara, admitindo que temas como os direitos humanos e as mortes de trabalhadores migrantes mereciam condenação. Contudo, argumenta que a revolta foi excessiva em comparação com episódios idênticos em outros cenários. “Quase todos os mundiais envolveram escândalos de corrupção”, menciona, questionando o que vê como um julgamento parcial do caso catariano.

Para Gomes, desconsiderar o significado simbólico do evento na região árabe revelou-se “lamentável e preocupante”, enfatizando que o torneio foi sentido como um acontecimento “local” por milhões de indivíduos.

A obra visa examinar perto de um século de campeonatos mundiais — “96 anos de mundiais de futebol” — com o intuito de organizar eventos históricos e analisar o envolvimento da FIFA na geopolítica mundial.

De acordo com o coautor, a lição essencial é que a entidade “desde a sua fundação (...) constitui um empreendimento de hegemonia europeia”.

“A FIFA surgiu apenas com nações europeias, apesar de pretender abranger o planeta todo”, esclarece, em conversa com a Lusa. Como ilustração, cita a predominância europeia nas edições iniciais: em 1934, 12 das 16 equipas eram europeias, e em 1938, 12 de 15.

O investigador salienta ainda a marginalização de equipas africanas e asiáticas ao longo de décadas. “Para o Mundial de 1966, a FIFA reservou só um lugar partilhado para África e Ásia”, evoca, medida que provocou o boicote africano ao torneio.

O português, instalado em Berlim desde 2013, opina que, na era colonial, a FIFA ajudou a impedir o progresso do futebol além da Europa, ao mesmo tempo que permitia que nações europeias se aproveitassem do talento das suas colónias. Ainda assim, admite que “o modelo presente já não discrimina como outrora”.

Nos tempos mais recentes, o investigador nota um aumento da interferência dos Estados Unidos na federação. Menciona, por exemplo, a ligação entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o atual líder americano, Donald Trump.

“A FIFA concedeu o galardão da paz a Donald Trump em dezembro de 2025 (...), um prémio que aparenta ser personalizado”, afirma, argumentando que o controlo na FIFA permanece no “hemisfério norte” e no “mundo ocidental”.

Ainda que se promova como uma instituição imparcial com mais de 200 federações filiadas, Gomes acredita que a FIFA tende a priorizar vantagens financeiras e influências políticas em vez de atuar como pacificadora em disputas globais.

“O futebol pode impulsionar o avanço político”, defende, censurando a falta de iniciativa da federação em cenários de conflito. Como caso, refere a tensão crescente com Israel, Estados Unidos e Irão, criticando a FIFA por não exibir apoio ao Irão.

Editado pela PapyRossa Verlag, o livro oferece uma perspetiva crítica da evolução dos Mundiais, entrelaçando desporto, política e diplomacia internacional, e desafiando a visão do torneio como “celebração da humanidade” num panorama global em mutação.