Entrevista Exclusiva com Jorvan Vieira, Vencedor da Taça da Ásia pelo Iraque: «Deram-me uma Pistola em Vez de um Apito»
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«Eu ficava em Bagdade com um colete à prova de balas e uma .765 à cintura. É verdade, não é exagero. Quando cheguei, a primeira pergunta que me fizeram foi: ‘Sabes atirar?’», recorda Jorvan Vieira numa entrevista exclusiva ao Flashscore.
«Respondi: ‘Sim, sei, fui oficial no exército’. E entregaram-me uma pistola para me proteger. Não me deram apito, nem chuteiras, nada. Deram-me uma pistola, porque a situação era realmente muito complicada», lembra.
A história da guerra no Iraque confunde-se com os traumas da geração que conseguiu a qualificação para o Mundial, apenas a segunda na história do país. A competição começa às 23:00 contra a Noruega, em Boston — ironia do destino, nos Estados Unidos.
Vários dos jovens jogadores convocados do Iraque nasceram em países europeus, porque as suas famílias fugiram do conflito. A invasão americana ocorreu em 2003 e prolongou-se até 2011.
«A maioria dos jogadores atua em países europeus, em campeonatos secundários, mas já tem uma experiência considerável. No meu tempo, tínhamos poucos jogadores no estrangeiro, e esses jogavam em países árabes, como o Catar. Os jogadores da minha geração nasceram no Iraque, enquanto os de hoje nasceram na Europa. Isso significa que têm uma cultura completamente diferente, não só no que diz respeito ao futebol, mas também em termos de educação e formação», conta Jorvan Vieira.
O impacto dos conflitos no Iraque não se limita à nova geração. A referência da seleção é o avançado Aymen Hussein, de 30 anos, que perdeu o pai num ataque da Al-Qaeda em 2008. O seu irmão também foi raptado pelo Estado Islâmico em 2014 e continua desaparecido.
«Dos 23 jogadores selecionados em 2007, todos já tinham perdido entes queridos durante a guerra. Seja por causa dos confrontos ou das brutalidades. Tenho histórias inimagináveis. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre o assunto», lembra Jorvan Vieira.
O livro em questão intitula-se «Dedico o golo a Bush», publicado em italiano em 2021 e traduzido para árabe, com um prefácio de Zico. Ainda não existe uma versão em português.
Entre sunitas, xiitas e curdos
Jorvan Vieira explica que a atual geração da seleção lida melhor com as diferenças étnicas e religiosas no Iraque, nomeadamente entre sunitas, xiitas e curdos. Reunir grupos diferentes em torno de um mesmo objetivo foi o grande desafio do treinador durante a épica campanha de 2007.
«Isso também existe nesta seleção atual, mas de forma mais atenuada, porque as mentalidades evoluíram. Na minha época, não era assim, porque vivíamos um período de guerra, e em tempos de guerra há hostilidades e rancor. Alguns diziam que os xiitas atacavam, outros que eram os sunitas, e assim por diante», explica.
«Os sunitas e os xiitas disputavam-se para que eu fosse à mesquita de cada um no Iraque. Pedi que me dessem um papel e uma caneta. Escrevi ‘sunita’ e ‘xiita’, coloquei os dois num copo e disse: ‘O primeiro que sair, é para lá que eu irei’. E saiu ‘sunita’. Fui então visitar a mesquita dos sunitas e, depois, a dos xiitas. Foi uma grande confusão», recorda.
Segundo Jorvan Vieira, uma das situações que mudou diz respeito às refeições partilhadas durante os encontros. O treinador conta que sunitas e xiitas evitavam, tanto quanto possível, cruzar-se.
«Depois de cinco dias a observar isto, fechei o restaurante e disse: ‘Não vão almoçar nem jantar, e também não vão comprar comida lá fora. Ou se sentam todos juntos, ou não há alternativa’. Foi aí que eles perceberam a realidade. ‘Este tipo é duro, não vamos conseguir fazê-lo ceder’. Porque eles faziam os outros treinadores cederem, sobretudo os locais, que tomavam partido pelo seu lado, mas eu procurei a igualdade. Quando fazia a lista dos quartos, um jogador vinha ter comigo: ‘Treinador, não quero ficar neste quarto, não com ele’. Um era xiita, o outro sunita. Eu fazia questão de misturar, por isso dizia: ‘Não há problema, pega na tua mala’. Chamava o adjunto e dizia: ‘Leva-o, arranja um táxi e leva-o de volta a Bagdade’. Então o jogador recuava: ‘Não, não, eu fico’. Foi assim que criei uma rede entre eles, para que se relacionassem, até que depois se beijassem, se abraçassem e trocassem passes. Mas foi muito difícil. O futebol tem esse poder de unir coisas que parecem inimagináveis na sociedade em geral», lembra o treinador.
Nascido em Duque de Caxias e de nacionalidade luso-brasileira, Jorvan Vieira construiu a sua carreira de treinador no Médio Oriente. Esteve duas vezes à frente da seleção iraquiana (2007 e 2008/2009) e treinou um clube do país em 2024/25, o Newroz. Recentemente, assumiu o comando do Al-Ahli, no Bahrain.