Brasileiro campeão com Iraque recorda título na guerra: 'Deram-me pistola em vez de apito'
"Eu permanecia dentro de Bagdade com um colete à prova de balas e uma .765 na cintura. É verdade, não estou a exagerar. Quando cheguei, a primeira coisa que me perguntaram foi: ‘Você sabe atirar?’", recorda Vieira em entrevista exclusiva ao Flashscore.
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"Eu respondi: ‘Sim, sei, fui oficial do Exército’. E deram-me uma pistola para me proteger. Não me deram um apito, não me deram chuteiras, nem nada. Deram-me uma pistola, porque era realmente uma situação muito difícil", acrescenta.
A história da Guerra do Iraque entrelaça-se com os traumas da geração que conseguiu a vaga no Mundial, apenas o segundo na história do país. A participação começa nesta terça-feira (16), às 19h (horário de Brasília), contra a Noruega, em Boston – por ironia do destino, nos Estados Unidos.
Vários dos convocados mais jovens do Iraque nasceram em países europeus, porque as suas famílias fugiram do conflito. A invasão dos EUA ocorreu em 2003 e prolongou-se até 2011.
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"A maioria dos jogadores atua em países europeus, em campeonatos secundários, mas já possuem uma experiência considerável. Na minha época, tínhamos poucos jogadores a atuar no estrangeiro, e eram em países árabes, como o Catar", afirma Jorvan Vieira.
"Os jogadores da minha geração nasceram no Iraque, enquanto os de agora nasceram na Europa. Isso significa que eles têm uma cultura completamente diferente, não apenas em relação ao futebol, mas também em termos de educação e formação", analisa.
O impacto dos conflitos no Iraque não se limita à nova geração. A referência da seleção é o avançado Aymen Hussein, de 30 anos, que perdeu o pai num ataque da Al-Qaeda em 2008. Já o irmão de Hussein foi sequestrado pelo Estado Islâmico em 2014 e continua desaparecido.
"Do grupo de 23 selecionados em 2007, todos já tinham perdido entes queridos durante a guerra. Seja por confrontos, seja por brutalidades. Tenho histórias que não se podem imaginar. Até escrevi um livro sobre isso", diz Vieira.
O livro mencionado é "Dedico o golo a Bush", publicado em italiano em 2021 e traduzido para árabe, com prefácio de Zico. Ainda não existe edição em português.
Entre sunitas, xiitas e curdos
Jorvan Vieira conta que a geração atual da seleção convive melhor com as diferenças étnico-religiosas do Iraque, sobretudo entre sunitas, xiitas e curdos. Unir grupos distintos em torno do mesmo objetivo foi o grande desafio do treinador na saga de 2007.
"Também existe isso nesta seleção atual, só que de forma mais suavizada, porque a mentalidade já evoluiu. Na minha época não era assim, pois vivíamos um período de guerra, e em tempos de guerra existem hostilidades e rancor. Uns dizem que os xiitas atacam, outros que os sunitas atacaram, e por aí vai", explica Vieira.
"Os sunitas e os xiitas discutiam para eu ir à mesquita de cada um no Iraque. Eu pedi que me dessem um papel e uma caneta. Escrevi 'sunita' e 'xiita', coloquei dentro de um copo e disse: 'O primeiro que sair é onde vou'. E saiu sunita. Lá fui visitar a mesquita dos sunitas, e depois a dos xiitas. Foi uma confusão terrível", lembra o treinador.
Uma das situações que evoluiu, segundo Jorvan Vieira, é a das refeições conjuntas na concentração. O técnico relata que sunitas e xiitas evitavam ao máximo encontrar-se.
"Depois de cinco dias a ver isso, fechei o restaurante e disse: 'Vocês não vão comer nem almoço nem jantar, e também não vão comprar comida na rua. Ou se sentam todos juntos, ou não há hipótese'. Foi aí que caíram na realidade. 'Este tipo é duro, não vamos conseguir dobrá-lo'. Porque eles dobravam os outros treinadores, especialmente os locais, que puxavam a brasa para a sua sardinha, mas eu procurei a igualdade", declara.
"Quando fazia a lista dos quartos, um jogador vinha: 'Ó, mister, não quero ficar naquele quarto, com ele não fico'. Um era xiita, outro sunita. Eu fazia questão de misturar, então dizia: 'Não tem problema, pega na mala'. Chamava o auxiliar e dizia: 'Pega nele, vê um táxi e leva de volta para Bagdade'."
"Aí o jogador recuava: 'Não, não, eu fico'. Assim fui criando uma rede entre eles, para que se interligassem, a ponto de depois se beijarem, se abraçarem e passarem a bola um ao outro. Mas foi muito duro. O futebol tem este poder de juntar coisas que parecem inimagináveis na sociedade em geral", conclui Vieira.
Nascido em Duque de Caxias-RJ e luso-brasileiro, Jorvan Vieira construiu a carreira de treinador no Médio Oriente. Ele teve duas passagens pela seleção do Iraque (2007 e 2008/2009) e treinou um clube do país em 2024/25, o Newroz. Recentemente assumiu o comando do Al-Ahli, do Bahrein.
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