Árbitros denunciam agravamento da violência com 10 agressões no último mês
Durante uma audiência na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, o vice-presidente do setor de contencioso da APAF, Sérgio Mendes, indicou que ao longo de uma década se registaram aproximadamente 400 incidentes de agressão, o que representa uma média anual de 40, mas enfatizou que “apenas no mês passado” ocorreram 10 casos.
De acordo com o responsável, a maior parte das situações afeta árbitros com idade inferior a 25 anos e experiência limitada de dois ou três anos, com as agressões cometidas principalmente por atletas e espectadores.
Sérgio Mendes diferenciou o cenário dos torneios profissionais, onde a agressão verbal é mais comum e frequentemente ligada a responsáveis clubísticos, realçando uma “ligação direta” entre acontecimentos noticiados e ocorrências posteriores em níveis mais baixos.
“Caso ocorra um episódio na elite envolvendo os árbitros, garanto que no fim de semana seguinte surgirão complicações”, declarou.
Como ilustração, mencionou que depois de um encontro da equipa nacional no Mundial com críticas à decisão arbitral, foram anotados oito casos de violência no fim de semana imediato, iniciando-se o primeiro apenas duas horas após o jogo.
O líder destacou ainda influências externas, como a conjuntura económica, salientando que fases de recessão e elevação dos preços fomentam o descontentamento, que se manifesta contra árbitros, por vezes muito jovens.
“Quando vivemos uma crise, as pessoas sentem-se irritadas e precisam de extravasar com alguém, sendo mais simples descarregar num jovem de 20 anos”, observou.
A nível de disciplina, referiu que as leis em vigor estabelecem multas de pelo menos 250 euros, mas avisou para os obstáculos na execução, especialmente em comunidades pequenas, onde as autoridades policiais lidam com pressões sociais.
“Entendo que é bastante difícil, com todo o respeito, um agente de Viana do Alentejo aplicar uma multa de 250 euros ao seu conhecido que o encontrará no dia seguinte. Provavelmente, opta por uma abordagem educativa, ou, como sucede com frequência, desvia o olhar e ignora o ocorrido”, comentou.
A APAF calcula que menos de 60 por cento das equipas possuam coordenadores de segurança devidamente registados nas entidades adequadas, criticando lacunas na supervisão e no respeito por normas elementares, incluindo treinamentos obrigatórios de cerca de 15 horas.
Outro aspeto referido relaciona-se com a gestão dos eventos desportivos, com federações a autorizarem vigilância por pontos de ligação à segurança (PCS) sem preparação apropriada, havendo registos de árbitros a auxiliar na redação de documentos após violações.
Sérgio Mendes questionou a imposição de castigos, citando exemplos em que penalizações de seis meses se cumprem durante o período de interrupção (férias), diminuindo o impacto real, ao passo que árbitros enfrentam suspensões de 90 dias por paralisarem partidas devido a falhas de proteção.
Em termos de prevenção, a APAF mencionou ter promovido iniciativas em mais de 102 estabelecimentos de ensino no ano transacto, alcançando cerca de 7.500 estudantes, visando promover o fair play e “tornar mais próxima a imagem do árbitro”.
Contudo, para Sérgio Mendes, as ações de consciencialização oferecem resultados passageiras, assemelhando-as a “um medicamento para a dor”, razão pela qual advoga intervenções mais profundas para combater a aceitação da violência no contexto desportivo.