Alexia Putellas ao completar 500 partidas pelo Barcelona: "Nunca imaginei algo assim"

Alexia Putellas ao completar 500 partidas pelo Barcelona: "Nunca imaginei algo assim"

Registe os momentos do jogo

- Como se sente no Camp Nou em instantes tão marcantes?

Imaginem, estou num mundo à parte. Trata-se de um dia inesquecível, como se tudo tivesse florescido de repente. Jogámos de forma excelente, tanto no aspeto pessoal como em grupo. Os fãs foram fantásticos, creio que estabeleceram um novo recorde de presença. Avançámos às meias-finais; sinto-me imensamente orgulhosa e agradecida por experienciar este momento.

- O que passou pela sua mente ao pisar o relvado perante 60.000 espetadores num Camp Nou repleto outra vez?

A realidade é que, antes e ao longo da partida, nada alterei no nosso habitual procedimento. Trata-se de um dever e uma dedicação. É essencial preservar as práticas, permanecer atenta e dedicada ao encontro, pois, no fundo, a nossa tarefa é honrar a fé depositada pela formação e pelas colegas.

Esforcei-me por manter esse foco mental até ao instante da entrada em campo. Foi então que abandonei o modo de disputa e comecei a compreender o que se passava. Persisto nessa bolha e precisarei de algum tempo para processar tudo. Estou repleta de alegria, não apenas pelo que vivi, mas porque todos partilham essa felicidade. É uma satisfação duplicada.

- Que pensamentos lhe surgiram ao observar toda aquela multidão da relva?

Orgulho puro. A noção de que todas avançamos unidas na mesma senda: os apoiantes, a equipa, o emblema... Sinto um vasto orgulho, pois há um laço de identidade muito potente nesta formação. É isso que nos motiva a oferecer sempre mais, esse toque adicional de orgulho. Mesmo com o resultado positivo do primeiro confronto, ansiávamos por mais. Esta conexão com o público constitui uma imensa fonte de orgulho.

- O seu primeiro golo nesta partida relembra que foi a pioneira a facturar no Camp Nou após a reabertura. A sua trajetória e a do Barcelona parecem entrelaçadas. No que pensou ao bisar e realizar a sua costumeira saudação?

Naquele instante, nada disso me ocorreu. Notei que a Ewa atirou ao golo e julguei necessário posicionar-me para o rebote, visto que, caso ela não concretizasse, não haveria outra por perto. Ao ver a bola solta, pensei "é mesmo golo". Era crucial iniciar o controlo e transformar a inicial ocasião em sucesso.

Se em 2012, no início da minha jornada, me anunciassem que isto ocorreria, jamais o teria concebido. Suspeito que seria o mesmo para vocês. O que festejamos transcende um golo ou uma partida número 500: é contemplar essas bancadas lotadas, todas aquelas crianças. Há mais de duas décadas, era eu a sentar-me lá em cima. Quem diria se, em 20 anos, alguma das raparigas presentes hoje não disputará o seu jogo 500? Trata-se de um ciclo fabuloso e estou a saboreá-lo plenamente.

"Exijo o máximo de mim"

- O que representa o Barcelona para si, para lá de ter dedicado quase toda a existência aqui?

É uma questão profunda e elaborada, pois o Barcelona incorpora múltiplos significados. Por este emblema, entrego tudo, esforço-me ao extremo e cobro de mim o derradeiro. É um vínculo que prezo altamente, mas, ao vivê-lo com tal intensidade, por vezes equilibra-se menos a estabilidade. Contudo, é desta forma que interpreto o Barcelona: ansiando por oferecer o melhor, renovando-me e mantendo total engajamento com as colegas e o clube. É um laço profundo que me segue desde o berço.

- Na ocasião anterior no Camp Nou, não pôde participar devido ao regresso de uma contusão. Representou uma motivação acrescida retornar desta maneira para este "inicial" jogo no Spotify Camp Nou?

- Foi exatamente quando obtive liberação médica após a lesão no ligamento cruzado. Para mim, após todo esse percurso, era vital poder finalmente ocupar o lugar na banca, voltar a envergar a camisola e deixar de acompanhar a equipa das bancadas de modo diferente. Nesse dia, não desci ao terreno, mas já constituiu um gesto simbólico. Foi a derradeira partida no antigo Camp Nou, e agora é a primeira no renovado Spotify Camp Nou. É esse ciclo de que mencionei: aprecio cada fase deste progresso, dia a dia.

- O que permanece da pequena Alexia de outrora na atual?

Permanece o cerne. Tudo está intacto: o desejo de exercer esta vocação que me cativa. Ao mesmo tempo, evolui e renovei-me ao longo dos anos, absorvendo lições dos especialistas ao meu redor. O essencial é que o núcleo se mantém. Às vezes, atravessamos fases em que não compreendemos bem o nosso labor, mas, se nos ancorarmos nesse cerne, nesse "ponto inicial", ganhamos imenso. Tudo prossegue, enriquecido pelo que erguemos em conjunto.